domingo, 2 de Fevereiro de 2014

Uma "festa dos caloiros" em 1904


[O Alarme: diário republicano da tarde, Porto, 10/11/1904, pág. 2; disponível na Biblioteca Nacional Digital.]

A MOCIDADE
A Festa dos caloiros - Na Academia Politécnica - Cortejo - Uma charge - Coisas de espírito.

Enquanto se prepara a função

Por este começo de Outono, quando as grandes árvores da Cordoaria se desfolham e os primeiros frios começam de picar as carnes, a mocidade entra em bandadas para a escola. Uns voltam uma vez mais à antiga casa de ensino e outros fazem a sua entrada bisonha nos largos átrios e nas altas salas onde os lentes severos os consideram como massa de reprovação...
E desde longe os antigos estudantes, aqueles a quem o léxicon académico denominou "veteranos"[1], organizam a festa dos "caloiros".
A tradição coimbrã enxertou no Porto, um tanto mais humana, um pouco mais sem a bruta sanha do canelão da Lusa Atenas e com um tanto mais de intuito, de espírito e graça.
A procissão dos "caloiros" representa quase sempre uma "charge", é o comentário sadio da gargalhada fresca da mocidade à pústula do meio, à miséria moral ou intelectiva do agregado social.
Ontem ainda, os estudantes da Academia Politécnica vieram à rua, em procissão pícara e chistosa, que sendo cheia de risos era como acicate aferrado na lombada de "consagrados" e um protesto, burlesco embora, mas justo, a essa fúria de exibições peregrineiras que de há tempo se tem assoalhado por vales e montados destas leiras nacionais.

*

Cá fora, no largo fronteiro à Academia, estende-se uma multidão impaciente.
Olha-se a portada do edifício, onde um fervilhar agitado de estudantes põe uma grande nota vivaz e álacre.
Afoitámo-nos ao ventre do vetusto estabelecimento, onde em tempos cabulámos[?] as horas duma mocidade desocupada. Num compartimento, guardado por sentinelas implacáveis, fazem-nos declinar a qualidade de bisbilhoteiros de letra redonda para nos consentirem a entrada.
Um tumultuoso mundo de rapazes cruza vozes, dá a última demão nas caracterizações, atira um vivo traço no lábio ao canto da testa, tornando cada máscara de caloiro em tabuleta de droguista.
No edifício, lá dentro, vestem-se opas e sobre as cabeças assentam mitras e tigelas de barro vermelho. Ensaiam-se os compassos sonorosos nas cornetas de barro e nos pífaros vulgares. É um charivari de feira com graça clownesca, a estrondosa e formidável chalaça dos lábios irreverentes dos rapazes.
Enfim a procissão organiza-se. Assoma às portas da Academia. E uma aclamação sobe da massa de curiosos, estruge um aplauso, uma como saudação alegre à mocidade que sabe rir como ninguém e zurzir as chagas a tagante duro e salubre.

O desfile

Rompe a ladaínha e o cortejo desfila. À frente, abrindo o préstito, um caloiro levantando no ar um estandarte de linhol branco, onde destaca uma cadeira, tendo pregado um dístico a amarelo com esta cifra: 8000 réis. E no assento a legenda: "Para quem quiser cá pôr o c.". Ao fundo do painel: "O martírio dos caloiros e dos outros".
É um comentário à extorsão de 8$000 réis por cada cadeira de trabalhos práticos, agora imposta aos alunos da Academia.
Vem seguidamente o estandarte azul, onde a caricatura do conhecido lente da 7.ª cadeira"[2] destaca entre fórmulas químicas e a frase "Olhe que já é!". Logo, em painel cor-de-rosa a caraça característica do professor de Química Orgânica[3] e este ritornello do sábio, que passa de geração a geração como herança típica das vetustas fórmulas de ensino: "Precipitam tais quais". Circulando a cabela do lente, onde avinca o traço dum artista, símbolos de corpos e fórmulas químicas. Outro estandarte mostra a deusa Flora, irada e ameaçadora, num gesto indignado...
É o "bronze" da Cordoaria que assim a fez tomar daquele assomo de raiva... Se o autor da cachopa, com seus ares de esperar o Manel que vem co'as vacas, aparecesse a jeito, não há dúvida que Flora entraria no Aljube, entre o clamor das folhas que a titulariam de homicida.

A Flora, monumento de António Teixeira Lopes (1866-1942), inaugurado em Agosto de 1904, em homenagem ao horticultor José Marques Loureiro (1830-1898). [Fonte: Arquivo Municipal do Porto]

É um andor que passa agora, todo enfeitado a nabos, e logo o pálio - uma coberta de chita espetada no alto de quatro estacas - sob o qual um rotundo estudante, empunhando um boneco, entoa a ladaínha.
Tudo isto, este conjunto bizarro, pintalgado pelas mirabolâncias de cor: o vermelho vinho das tigelas de barro, o azul e escarlate das opas.
O cortejo rodeia a Academia e passa em face à Escola Médica onde os estudantes o acolhem e prestam as honras de hospitalidade...
Mas vai longe a resenha e no número único, vendido a favor do "Comité Académico Operário", conta-se sucintamente esta monumental procissão.
E a ordem do cortejo eles mesmos o descrevem na folha espalhada a rodos, mercê de 30 réis por cabeça.
Diz assim o número único:

Cortejo

Às 12 horas do dia, anunciadas pelo toque da palhada à Municipal, começar-se-á a organizar o esplendoroso cortejo no templo da Academia. O préstito abre por dois soberbos mancebos armados a fingir arautos, vestidos sem carácter e acompanhados pela charanga do venerando Sabastião das Oficinas com ele próprio a dar à cabeça. Seguem-se as diversas irmandades com os respectivos estandartes e guiões pela ordem seguinte:
Confraria do Mano Zé, Confraria do Berthelot português, Congregação dos filhos de Flória e manos da dita, Confraria dos Femeanos, das Belas e das Artes que carregarão com uma palma de rolha com um letreiro "abraçando a Estátua", etc.
Encorporar-se-ão também todos os padres "libarais" e da Companhia... dos Vinhos em disponibilidade que ladearão os vistosos bispotes das seguintes dioceses: Cardeal-Bispo de Veneza, Reverendo Conde de Coronel Pacheco; Bispo da Ferraria, Reverendo Bento Queijo[4]; de Trás das Paredes, Reverendo Conde do Sem'o-dás; do Campo dos Degenerados, Reverendo Pés e Tanas; da "Pá da Lavra", o Infrutífero da Fonseca; da Rua do Chá o célebre e mais que reverendo Porto por Quatro; e o conhecido asneiroso da Tâmara[?], Reverendo Zé dos Soizas.
Toda esta bispalhada puxará à padiola onde vai a soberba coroa que será deposta no cume de Forno onde se encontra a miraculosa Santa Flória.
Na ocasião desta imponente cerimónia subirão ao ar inúmeros foguetes de lágrimas para enternecerem os assistentes e será entoado o majestoso hino da Virgem Flória, composto expressamente por um conhecido maestro de reconhecido valor como seja o Reverendo Seixoso. Finda a cerimónia da coroa será ouvida por todos os assistentes que não sejam como portas uma oração de sabença em português de lei e de assunto apropriado para todos compreenderem, mesmo os convidados oficiais e de representação social.

Na Cordoaria - A nabos e batatas

Da Escola Médica o cortejo endireita à Cordoaria. A multidão atropela-se, converge por todas as ruas para o local onde se ergue a estátua ao horticultor Loureiro.
A procissão enfrenta com o monumento.
Um estudante - o bispo da festa - trepa ao sólio onde se ergue a Flora, entoa a ladaínha, agita o hissope e, solene, toma duma colossal coroa de nabos e batatas e coloca-a no cocuruto da cabeça da fêmea do monumento.
Estrugem as palmas e um poderoso riso de milhares de bocas vibra no ar macio. Agora todos os acólitos dispõem nabos no monumento, em maneira e jeito que mal se sabe ao fim de minutos se se trata dum bronze comemorativo, se de barraca de hortaliceira.
A multidão ri sempre a cada nova partida dos moços. A polícia mesmo, cordata, mantém a ordem, evita que os curiosos pisem os alegretes, ela própria sorri também, como se compreendesse a hora de justiça que estava decorrendo.
Tudo se congregou: o céu cheio de luz, a terra viçosa e fresca das relvas vigorosas e a "ordem", recolhendo a selvajaria usada, enfronhou um jeito de civilização.
Um estudante diz a oração de sapiência, onde numa irreverência se acoima[?] de porta de forno o sítio onde, no calhau do monumento, assenta a efígie do horticultor comemorado.
Breve, que as horas escasseiam e o espaço falha:
A procissão recolheu à Academia e tudo findou.
Bela festa moça, pelo espírito, pela graça e pela obra de justiça cumprida.
Que haja enfim alguém para tesourar[?] as orelhas dos consagrados!

Rui de Neira          

Notas

Num dos estandartes lia-se "Magna peligrinatio[5] Floream"...
- O número único titulava-se "Imponente plingrinação à Virgem Flória" que se venera no Jardim da Cordoaria (em frente ao biscoito da Teixeira).
No apontado número único, entre a esfuziada álacre de "verve", de espírito moço rutilando nas mil facetas do riso, destaca o hino à Virgem Flora.
A letra é assim:

Porque é que tal Virgem se chama Flória
Sem que nós saibamos bem a sua história?

E porque de noite se conserva lá,
Quanto em tal sentido mil posturas  há?

Posto que ela seja de bronze a valer,
Em peça tornada possa vir a ser.

Ou grosso canhão de grande resistência,
Parece que pede uma esmola à Assistência.

Nós vimos, ó Virgem da Cordoaria,
Levantar-te o peito co'a nossa alegria.

Se fazes milagres de grande espavento,
Levanta essas mamas p'ra nosso contento.

Se aos bispos concedes favor's colossais,
Não esqueças os pobres, humildes pardais.

Nós somos caloiros. Mitrados também.
Que vimos pedir-vos as graças. Amén.



[1] Não se leia a palavra "veterano" com o significado actual. Provavelmente ainda se aplicaria a qualquer estudante que já não fosse caloiro ("doutor", dir-se-ia hoje). Em Coimbra, no início do século XIX, era veterano quem tivesse terminado o primeiro ano (com aprovação); e nos anos 60 do mesmo século, eram veteranos os alunos do 4.º e 5.º anos (Alberto Sousa Lamy, A Academia de Coimbra, 1537-1990, Lisboa: Rei dos Livros, 1990, p. 470).

[2] José Diogo Arroyo (1854-1925) era o lente proprietário da 7.ª cadeira (Química Inorgânica).

[3] António Joaquim Ferreira da Silva (1853-1923), químico muito conceituado, era lente proprietário da 8.ª cadeira (Química Orgânica e Analítica) desde 1880.

[4] Esta é a referência mais evidente: Bento Carqueja, na altura lente substituto da 16.ª cadeira (Economia Política. Legislação de minas, industrial e de obras públicas) e simultaneamente colaborador do jornal O Comércio do Porto (era sobrinho de um dos fundadores e viria a ser co-proprietário e director), que tinha a sua sede na Rua da Ferraria (actual Rua do Comércio do Porto). Os outros bispos/bispotes ("bispote" é um termo popular para penico) são também referências a professores da Academia Politécnica (ou talvez a outras personalidades da época).

[5] No original está "peligrination" mas, a menos que o objectivo fosse misturar latim macarrónico com francês macarrónico, não faz sentido. Deve ser uma gralha (há muitas no texto original).

sexta-feira, 26 de Julho de 2013

Dois documentos sobre o uso da capa e batina no Porto em 1929 e 1930

Interrompo o longo silêncio neste blogue para dar a conhecer dois interessantes documentos sobre o uso da capa e batina na passagem dos anos 20 para os anos 30 que encontrei nos últimos meses.

Começo por uma fotografia retirada da revista brasileira Lusitania ("revista illustrada de approximação Luso-Brasileira e de propaganda de Portugal"), n.º 36, de 16 de Julho de 1930. A fotografia aparece inserida numa reportagem fotográfica, por José Mesquita, sobre uma iniciativa de caridade realizada no Porto, a "Venda da Flor". Aí vêem-se dois estudantes de capa e batina (clicar para ampliar a imagem, de forma a distinguir o estudante em segundo plano, com a capa no ombro direito). Na respectiva legenda lê-se "Maria Thereza, odorifero cravo dos jardins do Porto, “cravando” um pobre academico".

O que tem esta fotografia de fora do comum? Simplesmente, e não é pouco, a espontaneidade.
A esmagadora maioria das fotografias antigas em que aparecem estudantes do Porto de capa e batina são fotografias de pose: retratos tirados em estúdios fotográficos, fotos de curso ("os quintanistas de Medicina do ano x"), fotografias institucionais da tuna ou orfeão; na melhor das hipóteses, temos fotos tiradas durante alguma excursão ou digressão de um grupo académico. Por muito interessantes que sejam, as fotos de pose transmitem pouca informação sobre o uso quotidiano do traje académico.
Na foto apresentada aqui, pelo contrário, vemos dois estudantes surpreendidos em plena baixa, possivelmente a caminho ou à saída das aulas, usando o traje académico de forma descontraída. Capa ao ombro num caso, segura no antebraço no outro. O estudante em primeiro plano traz uma boina[1].

O segundo documento é uma verdadeira preciosidade.
Trata-se de um filme, preservado na Cinemateca Portuguesa, sobre uma excursão de alunos do Liceu Alexandre Herculano em 1929. (Clicar para abrir a página da Cinemateca com o filme; não consegui encaixar ["embed"] directamente o vídeo.)
Duas notas: o filme parece montado aleatoriamente, e não por ordem cronológica; um mapa com as localidades visitadas pode ser visto aos 9m34s.
De realçar a grande implantação da capa e batina no Liceu Alexandre Herculano nesta época.
Quanto aos pormenores no seu uso que fogem aos cânones praxísticos do séc. XXI, dariam panos para mangas...






[1] Embora possa ser surpreendente para alguns, não é inédito - conheço fotografias de uma excursão da Tuna em 1932 em que um dos elementos usa boina; e o antigo dux veteranorum Flávio Serzedello contou-me em conversa nos anos 90 que no seu tempo (anos 40 a 60) havia no Porto quem usasse boina com capa e batina - ao contrário do gorro, que não era usado.

quinta-feira, 3 de Maio de 2012

Qvid Tvnae?
A Tuna Estudantil em Portugal

(Para comprar, ir a http://www.euedito.com/qvidtvnae.)

Foi recentemente publicado o livro Quid Tunae? - A Tuna Estudantil em Portugal, de Eduardo Coelho, Jean Pierre Silva, João Paulo Sousa e Ricardo Tavares, que se apresenta como "a primeira obra sobre tunas estudantis em Portugal". Esta primazia, tanto quanto sei, é justificada: existe (pelo menos) um livro sobre tunas populares; existem alguns livros sobre tunas estudantis específicas;  mas este é o primeiro livro em Portugal que aborda o fenómeno tuna estudantil de uma forma global.
O livro está estruturado em quatro partes.
Na primeira, os autores dedicam-se a desfazer dois tipos de mito: o de que as tunas "já vêm da Idade Média" e certas etimologias fantasiosas da palavra "tuna" (pelo caminho indicam qual, dentre as várias possíveis origens desta palavra, é a que lhes parece mais credível; e fazem também algo que a mim me parece muito mais interessante e relevante - mostram a grande alteração semântica que a palavra sofreu no século XIX, de "vida folgazã" para determinado tipo de grupo musical).
A segunda parte trata da origem e desenvolvimentos das estudiantinas e tunas em Espanha (com prolongamentos na América Latina e ainda noutras paragens, por vezes surpreendentes).
A terceira parte aborda as estudantinas e tunas em Portugal (e, brevemente, antigas colónias e Brasil) do final do séc. XIX até aos anos 60/70 do séc. XX. Trata-se das tunas "à antiga", de um imenso mundo de tunas populares e académicas (incluindo inúmeras liceais) que poderá surpreender muita gente.
A última parte é sobre a "segunda vaga" de tunas estudantis em Portugal, de 1982 a 1995. De facto é só aqui, neste período que começou há trinta anos, que a maior parte dos potenciais leitores encontrará as tunas tais quais as conhece.
Os quatro autores, trazendo larga experiência da sua participação em sete(!) tunas, não caem na armadilha de achar que a prática lhes dá autoridade em matérias históricas e/ou teóricas. Na verdade, nota-se que este livro resulta de vários anos de pesquisa documental e provavelmente de inúmeras discussões.
Na primeira leitura que fiz, aprendi já muita coisa. E conto aprender mais em futuras consultas e seguindo algumas pistas aqui lançadas.
Os autores não se coibem de apresentar as suas opiniões. E devo dizer que em muitos casos discordo dessas opiniões. Mas são opiniões fundamentadas - e é agradável poder discordar de opiniões fundamentadas (o mais frequente quando se trata de tradições académicas é ver-me confrontado com disparates gratuitos, contra os quais não se pode argumentar...).
Assim, o aparecimento deste livro é de saudar por várias razões: por ser a primeira obra em Portugal sobre as tunas estudantis; por serem raros os trabalhos sobre tradições académicas; e por serem ainda mais raros os trabalhos honestos sobre tradições académicas.
Não tem defeitos? Seria impossível não ter. A mim desiludiu-me um pouco a qualidade de reprodução das fotografias (e há imagens interessantíssimas), o que talvez seja uma consequência inevitável do processo de edição ("de autor"). Naqueles assuntos em que percebo alguma coisa, notei alguns erros factuais, mas poucos e geralmente pouco relevantes (por ex.: a Mini-Queima do Porto foi em 1978 e não em 1982). Há várias secções em que a escolha que fizeram do que incluir e do que excluir é discutível (mas aqui estamos mais uma vez no campo das opiniões).
Resumidamente: foi um prazer ler este livro, que é agora elemento de consulta indispensável sobre o seu tema. Todos aqueles que se interessam pelas tradições académicas (e especialmente por tunas, claro) devem ficar gratos aos autores, que estão de parabéns!

quarta-feira, 14 de Março de 2012

Tradições Académicas Portuenses:
Breves notas, vividas, de uma "História" em criação
*

Armando Luís de Carvalho Homem

[Artigo publicado originalmente no Boletim da Universidade do Porto, n.º 9 (Junho de 1991), págs. 29-33 e republicado (com ligeiras alterações) no blogue Guitarra de Coimbra, de Octávio Sérgio, em 1 de Agosto de 2005.
A versão abaixo inclui o que foi introduzido em 2005 mas também o que foi então retirado - nomeadamente as fotografias que acompanhavam a publicação original.
Agradeço ao Prof. Doutor A. L. Carvalho Homem a autorização para esta terceira publicação.]



À memória do Doutor Luís Vasco Nogueira Prista († 2004),
lente de Farmácia, universitário à part entière


1. Dos Clérigos ao Carregal: um Estudo na Cidade

É uma praça. Como tantas outras. Quadrangular. Trapezoidal, digamos. E orientada, grosso modo, segundo os pontos cardeais. Nos vértices e num dos lados paralelos vêm convergir outras praças e diversos arruamentos; enquanto que outro dos lados é todo ele preenchido pela embocadura de mais uma rua, que vai estreitando, qual funil, para terminar num pequeno largo. Diversos nomes teve já a nossa praça: Largo do Carmo, Praça da Universidade, Praça Gomes Teixeira. Mas para o habitante médio da Cidade tem sido, e por certo será, «os Leões», nome advindo da brônzea fonte ornada de quatro regorgitantes espécimes da soberana espécie que lhe está ao centro.
Desloquemo-nos para a placa central da praça; contornemos a fonte pelo lado Leste e, voltando-lhe as costas, olhemos para Sul: à nossa frente, ‘monopolizando’ esse lado, está um maciço edifício onde alternam o cinzento da pedra, o branco da tinta e o verde dos portões. Para os mais idosos dos habitantes do Burgo, é, ainda hoje, «a Universidade». O qualificativo nunca teve total razão de ser. Berço de uma das mais antigas Escolas Superiores portuenses (a Academia Politécnica, na raiz da Faculdade de Ciências), jamais o edifício terá albergado a totalidade do Ensino desse nível, quer antes, quer depois de 1911. Não tendo nunca total razão de ser, não tendo hoje (salvo por ‘inércia’ terminológica) qualquer razão de ser, o qualificativo teve no entanto, e por muito tempo, suficiente razão de ser: albergando a Faculdade de Ciências, naquela Casa sediavam também a Reitoria e diversos Serviços Centrais (o que aconteceu até aos anos 70); e o Salão Nobre respectivo foi durante décadas a «sala dos actos» do Estudo Geral portuense.
Quanto ao mais, tudo se processava por ali perto: no largo ao fundo da referida rua em funil situava-se a Faculdade de Medicina (sucessora da Escola Médico-Cirúrgica), tendo ao lado um hospital, também Escolar. Dos Clérigos ao Carregal: num limitado espaço, duas das Escolas ‘fundadoras’, os Serviços Centrais, as sedes dos Organismos estudantis, cafés e restaurantes de frequência acentuadamente universitária, pensões, residências, casas alugando quartos... Tudo, ou quase tudo, nesse limitado espaço, acrescido de dois eixos que o prolongavam: por Cedofeita, até à Rua dos Bragas (sede, até 2001, da Faculdade de Engenharia); pelo Rosário / Boa Hora, até à Rua Aníbal Cunha (sede da Faculdade de Farmácia); pelo caminho ficando uns tantos lares e as sedes dos Serviços Sociais e Desportivos. E mesmo as Escolas de mais tardia fundação (e tomando os anos 70 como terminus ante quo) aí se iriam situar: Economia (1953; funcionou nas «águas-furtadas» da Faculdade de Ciências até ao Outono de 1974) e Letras (1962)[1].
Dos Clérigos ao Carregal (e prolongamentos)...: num limitado espaço todo um viver estudantil. Que a dado momento se terá plasmado em práticas bem próprias: o uso de um traje, o comemorar condigno do final do ano lectivo e do termo dos cursos, o preenchimento dos tempos livres (?) com determinadas actividades artísticas – mormente teatrais e musicais, sendo de salientar dentro destas últimas certas formas de música vocal-instrumental (tunas, orquestras de tangos), as danças e cantares regionais ou, finalmente, um determinado género, tipicamente estudantil, assente numa dada forma de cantar e num típico suporte instrumental: o «Fado de Coimbra». ‘Imitação’ dos comportamentos estudantis da mais antiga Universidade portuguesa? Um ‘purista’ afirmá-lo-ia sem hesitar. Mas tudo depende do que se entender por ‘imitação’. No fundo, será de surpreender que uma comunidade estudantil, vivendo numa Cidade não-universitária mas confinando-se espacialmente, ‘reproduzisse’ certas práticas? O mesmo não se ia passando em tantos Liceus da Província (mormente no Interior-Norte e Centro) e, mesmo no Porto, no mais ‘provinciano’ dos seus Liceus masculinos (o Alexandre Herculano)? Nada tem pois, quanto a mim, de menos ‘digno’ que o Porto tivesse a tradição que foi tendo[2], os Organismos que se foram criando (um Orfeão, uma Tuna, uma Orquestra Universitária de Tangos [estas duas mais tarde integradas no Orfeão], um Teatro Universitário [1948], mais tarde um Coral de Letras [1966]), que esses Organismos procurassem um público ‘médio’, no País ou fora dele: as «digressões» processavam-se aonde quer que houvesse «núcleos de Portugueses espalhados pelo Mundo» – África(s), Brasil, Estados Unidos, pontualmente Venezuela; na Europa ficavam-se pela vizinha Espanha: a ‘descoberta’ do Velho Continente viria bem mais tarde...[3]



2. O Estudo Pela Cidade...

Mas um dia... já nem tudo vai estar entre os Clérigos e o Carregal. Uma população escolar que cresce, exigências científicas e pedagógicas que acrescem... O espaço universitário distende-se. E ainda que pelo caminho tenham ficado projectos de expansão na zona histórica (cadeia da Relação, mosteiro de S. Bento da Vitória...), o ‘crescimento’ verificar-se-ia alhures: com a construção do Estádio Universitário, logo prolongada pela instalação do Jardim Botânico na Casa Andresen (anos 40/50), esboça-se o pólo do Campo Alegre; e o da Asprela inaugurar-se-á em Junho de 1959 com o Hospital de S. João, nova sede da Faculdade de Medicina. E pela Cidade iriam também surgir novas residências...
E, depois, a comunidade estudantil dos anos 60 já não iria ser a mesma. Repare-se: o traje académico, na feição que adquirira no início do século XX (uma batina estudantil está próxima de uma sobrecasaca oitocentista), andava em paralelo com o uso quotidiano do «traje de passeio» (leia-se: fato e gravata). E o jovem comum propendia a afastar-se de tal vestuário. Consequência: as marcas exteriores de uma certa Tradição começam a sair do quotidiano e a só surgir em Abril/Maio, aquando da «Queima». Os próprios membros dos Organismos Artísticos tenderam então a envergar a capa e batina apenas aquando de apresentações públicas, qual ‘traje de cena’, como a casaca dos músicos «clássicos». E mesmo as actividades destes Organismos estavam em vias de deixar de dizer algo a boa parte da população estudantil, em tempos de declínio de interesse pela música coral, de ‘explosão’ do pop/rock ou de posse, cada vez mais frequente, de uma formação musical autêntica por estudantes universitários[4]. Por outro lado, o «Fado de Coimbra», num meio muito mais intérprete que criador[5], tendia a estagnar; quaisquer tentativas de fazer algo de diferente[6] – e falo por experiência própria – chocavam com a difícil receptividade do público, a começar pela própria ‘primeira fila’ que eram os Colegas de Organismo; sempre ‘caía melhor’ o «Passarinho da Ribeira»...
Finalmente, o ‘radicalizar’ de posições na viragem dos anos 60 para os 70 levou a esquerda estudantil à contestação global da Tradição, identificada com «conservadorismo / reaccionarismo / elitismo / marialvismo castrado»..., quando não com adesão ao regime político do tempo; contestação larvar a partir de 1968; contestação frontal a partir de 1971: em Abril deste último ano, e na sequência de acontecimentos que aguardam ainda o seu narrador, teria lugar, em clima extremamente tenso e com cumprimento de apenas uma parte do programa, a última «Queima das Fitas». Clima tenso, mas que logo se distendeu; aparentemente, afinal, as Tradições pouca falta faziam...; e quase todos os que em –71 as defenderam logo se desinteressaram[7]. E tudo pareceu terminar...



3. Um Estudo a cada Esquina da Cidade?

Assim, 1974 não vai representar nada em matéria de Tradições Académicas, desaparecidas, como se viu, cerca de 3 anos antes. A década de 70 é portanto, praticamente toda ela, de ‘vazio’ nesta matéria.
E é nos anos 70 que a Universidade do Porto se expande decisivamente, esboçando o facies actual: cresce a sua população, fundam-se Escolas e Serviços, projectam-se e constroem-se edifícios, tudo em torno dos três pólos já indicados. Ao mesmo tempo que ao Porto se estende a Universidade Católica, que na Cidade surge o Ensino Superior Privado e Cooperativo e que diversas outras Escolas se criam ou reconvertem, vindo a dar origem ao Ensino Superior Politécnico; e, também aqui, a iniciativa estatal se tem visto complementada pela privada e cooperativa. E todas as novas (ou transformadas) Escolas foram tendendo a aderir a práticas e festejos entretanto ressurgidos (mormente a «Queima das Fitas»), ‘federando-se’ a diversidade dos Estabelecimentos na reaparecida designação de «Academia do Porto».
Tal ressurgimento teve as suas primeiras manifestações na Primavera de 1977, quando o Orfeão Universitário e Associação dos Antigos Orfeonistas da UP comemoraram os seus 65.º e 10.º aniversários, respectivamente, com 2 Saraus, realizados no Rivoli e no Coliseu. Estas iniciativas foram pacíficas (o Orfeão só em 1976 não realizara o seu Sarau Anual no Rivoli). O mesmo se não dirá de algo ocorrido no ano seguinte: estudantes de algumas Faculdades lograram realizar uma «Semana Académica»; apesar de contestada, a iniciativa teve continuidade, logo em 1979 se recuperando a designação «Queima das Fitas». Ressurgimento este, portanto, em termos não propriamente pacíficos. No fundo, e por banda de sectores estudantis (e político-partidários) opostos, uma contestação à contestação de uns tantos anos antes... Nesses primeiros tempos, as restauradas Tradições estão assim longe de unir a população estudantil, bem pelo contrário[8].


E hoje [1991], mais de uma dúzia de anos decorrida?
Para alguém com a minha idade (40 anos), o meu percurso estudantil (Liceu Alexandre Herculano / Faculdade de Direito de Coimbra / Faculdade de Letras do Porto) e a minha vivência das tradições musicais a sensação é, não raro, de alguma perplexidade. Os anos de interrupção fizeram perder a memória de comportamentos, práticas, símbolos; ‘codificação’ não existia; a bibliografia era escassa e inencontrável; e a transmissão oral (perguntar ao pai, ao avô, ao irmão mais velho, a algum professor mais antigo...) não resolve tudo... Daí que alguém do meu tempo amiúde se veja confrontado com práticas, por assim dizer, ‘exóticas’: das ‘fantasias’ vestimentais, a peditórios na via pública para... viagens de finalistas (!!!!), até ao ‘ressuscitar’ do menos simpático dos aspectos da Tradição – o gozo aos caloiros (a «praxe» stricto sensu), coisa de ténue prática no Porto (salvo no Orfeão Universitário), que de qualquer modo desaparecera das Faculdades muito antes de 1971 e que hoje se exerce em termos não raro pouco dignificantes, chegando-se inclusivamente (coisa impensável há 30 ou 40 anos) a perturbar o funcionamento de aulas! Por outro lado, o número dos indivíduos e instituições abrangidos por este universo de comportamentos é hoje consideravelmente mais lato: onde tínhamos uma Universidade com umas tantas Faculdades temos hoje uma «Academia» com uma multidão de Escolas: estatais, privadas e concordatárias, universitárias e politécnicas. É corrente, nos mais díspares locais da Cidade, cruzar-me, em certas épocas do ano, com grupos de estudantes trajados a rigor, ostentando insígnias de cores inesperadas; de onde, a natural pergunta: – Que Escola ou Instituto por aqui se localizará ?!
Numa «Academia» com uma tal dimensão e dispersão serão ‘lógicas’ manifestações unitárias ‘monstras’, como um Cortejo mantido em dia de normal laboração, ou uma serenata «monumental» que já chegou a realizar-se na Avenida dos Aliados, precedida de ‘passagem’ de música rock (gravada), não sei se para ‘criar ambiente’?!
Um ‘veredicto’ final condenatório? Só que um criador cultural, e logo no âmbito das Ciências Humanas e ainda por cima historiador, tem que manter a serenidade das suas apreciações. Por isso finalizarei com duas sucintas notas, serenas:

a) Se uma população de milhares e milhares de estudantes – e mesmo descontando o factor ‘propaganda’, que leva as Escolas jovens a reproduzir práticas com uma longa tradição nas mais antigas – assume determinados comportamentos é porque eles lhe dizem algo. Não caiamos agora no simplismo do diagnóstico de «alienação» (de tantos milhares...) ou, nos tempos que correm, em elementares acusações de estratégias partidárias, conservadoras ou não.

b) Em certas semanas lectivas, alguém que é docente universitário há mais de 18 anos, que enquanto estudante viveu as Tradições e com mágoa assistiu ao seu desaparecimento, vê-se rodeado de alunos, finalistas, nomeadamente, que lhe pedem um autógrafo nas fitas, o apadrinhamento da imposição da cartola, lhe parodiam as aulas na «sessão de serrote», lhe solicitam a presença em múltiplos encontros de confraternização... Um tal docente, vivendo um ofício de árduo exercício num ambiente não raro propenso a tensões, não pode, nessas semanas, deixar de se sentir acrescidamente compensado, deixar de sentir... «uma terna consolação» (Eça de Queiroz).

Porto, Primavera de 1991






* As observações que este artigo consubstanciou integravam-se na preparação de um volume – Universidade do Porto (1911-1991): História, Estórias – a coordenar pelo autor e a publicar em 1992, no âmbito das actividades do Projecto ALMA MATER (coord. Luís V. N. Prista) e da FUNDAÇÃO GOMES TEIXEIRA (coord. do Vice-Reitor Eduardo Oliveira Fernandes). Nos meses finais de 1991, estes dois Mestres (que em mim depositaram inesquecível confiança) desvincularam-se dos cargos e funções que exerciam; de onde, a não-concretização do projecto. De qualquer modo, reitero agora os agradecimentos então feitos pelas colaborações que recebi: Reitoria, Fundação Gomes Teixeira, Órgãos Directivos das diferentes Escolas, Serviços e Organismos da UP, Dr.ª (hoje Prof.ª Doutora) Amélia Polónia da Silva (Fac. Letras) e Dr.ª (hoje Prof.ª Doutora) Amélia Ricon Ferraz (Fac. Medicina).

[1] A este respeito não deixa de chocar a localização ‘excêntrica’, na Quinta Amarela (a caminho do então suburbano Carvalhido), da Faculdade de Letras em parte do seu primeiro tempo de vida (1919 ss.). ‘Excentricidade(s)’ (que outras houve...) sempre impeditiva(s) de uma perfeita integração da Escola na UP; e à(s) qual(is) não será estranho o seu fim (1928-1931), sem glória nem grandeza.

[2] Deixo de lado toda e qualquer explanação ‘erudita’ sobre a cronologia de tais Tradições: com isso se não compadecem os limites de espaço, o tempo breve que tive para redigir este texto e o carácter mais vivencial do que histórico-sociológico que lhe quis imprimir. Direi, no entanto, que as raízes são remotas, anteriores, até, à criação da Universidade. Como renuncio a qualquer abordagem das (problemáticas) especificidades da Tradição portuense: não raro esse tipo de preocupação redunda num nada saudável ‘bairrismo’; salientarei apenas, e a esse propósito, a maior precocidade na adaptação do traje académico ao uso por estudantes do sexo feminino; porque, com efeito, os Organismos portuenses foram mistos mais cedo; salientarei também uma ‘originalidade’ portuense que consistia no uso frequente da pasta com fitas ou grelo sem o traje académico; e salientarei ainda que, encravada numa grande Cidade, a população estudantil nem sempre terá sido vista do melhor grado fora dos limites da sua micro-«cidade universitária»: de longa data, por exemplo, os portuenses ‘vernacularmente’ se queixavam dos engarrafamentos de trânsito provocados pelo Cortejo da «Queima das Fitas», isto nos anos 50, bem antes de outras formas de contestação.

[3] Com efeito, só no final dos anos 70 os Organismos musicais começariam, com certa regularidade, a deslocar-se a países europeus, já para actuar junto de comunidades de emigrantes (e aqui havia apenas o precedente do Orfeão, França/1967), já para participar em Festivais de Coros ou de Folclore (e aqui o papel de pioneiro cabe ao Coral de Letras, Escócia/1970 e Itália/1971).

[4] Uma ‘saída para a crise’ terá então estado na melhoria do reportório e da preparação vocal dos coros universitários, agora crescentemente voltados para a polifonia religiosa, para J. S. Bach ou para a música popular com harmonizações de Fernando Lopes-Graça, isto num processo iniciado ca. 1967 por Günther Arglebe no Orfeão e por José Luís Borges Coelho no Coral de Letras e prosseguido mais tarde por Mário Mateus (1973 ss.) no primeiro destes Organismos.

[5] E se alguns guitarristas e cantores de ‘Velha Escola’ ainda procuravam seguir a lição de Artur Paredes / Edmundo Bettencourt, a grande maioria ficava-se pelo mais ‘cinzento’ repertório coimbrão dos anos 40/50; no máximo da modernidade, chegar-se-ia ao conteúdo do álbum Coimbra Quintet, gravado em Madrid para a PHILIPS em 1957, por Luiz Goes / António Portugal / Jorge Godinho / Manuel Pepe / Levy Baptista.

[6] V.g. incluir no reportório temas do ‘último’ Luiz Goes (discografia 1967 ss.), de José Miguel Baptista, de José Manuel dos Santos ou de António Bernardino, e isto para já não falar das «trovas» de M. Alegre / Portugal / Adriano, as quais mantinham o suporte da guitarra, contrariamente às «baladas» de José Afonso; ou peças de Carlos Paredes (que "heresia"!...) ou Jorge Tuna.

[7] Só o Orfeão manteve, e por mais algum tempo, o uso da capa e batina; ainda que em 1972 ou –73 usar o traje na rua pudesse comportar a audição de alguns ‘piropos’ não muito agradáveis...

[8] Na Faculdade de Letras, em 1978 e 1979, o apoio ou não-apoio à "Semana Académica" / "Queima das Fitas" chegou a ser objecto de acesa discussão na Assembleia de Representantes.

quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

Sobre as latadas e o uso de insígnias

Em Outubro e Novembro passados apareceu no blogue Penedo da Saudade, do antigo estudante de Coimbra (e do Porto) Zé Veloso, um texto sob o título genérico Das Latadas à Festa das Latas, fazendo uma pequena história do costume coimbrão das latadas. O autor dividiu-o em duas partes, aliás bastante naturais:
Parte I: As latadas do final do ano lectivo. A emancipação dos caloiros
Parte II: As latadas do início do ano lectivo. A imposição de insígnias

A relevância particular da história das tradições académicas coimbrãs para quem se interessa essencialmente pelas tradições académicas portuenses costuma ser óbvia: uma grande parte dessas tradições académicas surgiu em Coimbra ou aí tomou uma forma muito próxima da que mais tarde seria assumida no Porto.
Mas este caso é diferente. A leitura do texto de Zé Veloso, principalmente da parte II, é recomendável aos académicos do Porto, não para que se informem sobre a origem das latadas que realizam, mas para que se apercebam das diferenças fundamentais entre a tradição coimbrã das latadas e o costume portuense que usa o mesmo nome.

Não vou resumir o texto de Zé Veloso. As ligações estão aí em cima e o leitor está convidado a lê-lo. Saliento apenas algumas características das latadas nos anos 40, 50 e 60 do séc. XX: quase total ausência de latas; cortejo constituído pelos grelados e fitados de uma faculdade (tendencialmente todos), que mobilizam caloiros pertencentes a quaisquer faculdades, não necessariamente à da latada, mascarados, muitos transportando cartazes com piadas (frequentemente políticas). Muito longe de um cortejo constituído pelos caloiros de uma faculdade (ou da "academia", mas organizados por faculdade), obrigatoriamente com latas, com doutores (não necessariamente grelados ou fitados) que acompanham e controlam, mas não constituem o cortejo.

Mas então qual é a história das latadas do Porto?
Antes dos anos 80, esta história é muito simples de contar: não havia latadas no Porto.
Em 1982 é publicado o livro Quid Praxis? (Portucalensis), de Manuel Cabral e Rui Marrana (um livro que tenta ser sobre a Praxe Académica portuense mas recorre quase exclusivamente a bibliografia coimbrã - na verdade os autores vão caracterizando a praxe de Coimbra e usando pouco mais do que a sua opinião pessoal e a sua experiência de três anos de "restauração" das tradições académicas no Porto para decidir o que se aplica, e como, a esta cidade). Às latadas, é dedicada meia página (dois parágrafos e uma pequena nota de rodapé), na secção "Outras iniciativas académicas" (pág. 91) - incluindo a referência importante de que este hábito "nunca atingiu o Porto".
No ano seguinte aparece um chamado Projecto de Código da Praxe Académica do Porto, dos veteranos de Engenharia José António Balau e Augusto Henrique Soromenho - cópia com poucas adaptações (e mal feitas) do Código da Praxe Académica de Coimbra de 1957. Os artigos que mencionam as latadas são simplesmente copiados, como se correspondessem a tradições portuenses, com adaptações cosméticas; por exemplo:
Codigo da Praxe de Coimbra, art. 258.º
As insígnias que irão usar-se no decurso do ano lectivo são postas no dia da latada ou cortejo respectivo às 10 horas da manhã.
A latada dum ano ou curso só pode efectuar-se depois de terminados os exames da sua época de Outubro e terá lugar em dia combinado entre todos.
Projecto de Código da Praxe do Porto, art. 256º
As insígnias que se irão usar no decurso do ano lectivo são postas no dia da Latada ou Cortejo respectivo às 10 horas da manhã.
A Latada dum ano ou curso só pode efectuar-se depois de terminados os exames da sua época de Outubro e terá lugar em dia combinado entre todos ou segundo data indicada pelo C.V.F. [Conselho de Veteranos de Faculdade] respectivo.

Codigo da Praxe de Coimbra, art. 266.º
A mesma espécie de insígnias pessoais só pode ser usada no dia do Cortejo da Queima das Fitas, no dia seguinte a este e durante um ano lectivo, a partir do dia da latada da respectiva Faculdade até à hora do toque matutino da Cabra no dia do Cortejo da Queima das Fitas.
§ 1.º Os que se apresentem a exame final de licenciatura podem usar as fitas tantas vezes quantas as que se apresentarem a exame.
§ 2.º O que ao fim de 5 anos ainda não se tenha licenciado pode voltar a usar fitas durante mais um ano lectivo.
Projecto de Código da Praxe do Porto, art. 265º
A mesma espécie de insígnias pessoais só pode ser usada no dia do Cortejo da Queima das Fitas, no dia seguinte a este e durante um ano lectivo, a partir do dia da Latada da respectiva Faculdade até ao dia do Cortejo da Queima das Fitas.
§ Único - Os que se apresentem a exame final de licenciatura podem usar as fitas tantas vezes quantas as que se apresentarem a exame.
[Este segundo exemplo é particularmente chocante por ignorar a estrutura tradicional da Queima das Fitas do Porto. Na Queima das Fitas de Coimbra, as novas insígnias começam-se a usar ("vão-se buscar") no dia do Cortejo, que tradicionalmente é (ou era, até recentemente) o penúltimo; na Queima do Porto, as novas insígnias começam-se a usar na Imposição de Insígnias, que acontece no início da semana - nos anos 50 e 60 acontecia na segunda-feira, segundo dia da Queima; a partir dos anos 80 acontece no domingo, primeiro dia da Queima - e usam-se durante todo o resto da semana - não apenas dois dias, e se fossem apenas dois esses dias não seriam o do Cortejo e o seguinte, esquecendo o dia da Imposição!]

Assim, não foi antes de 1982, e foi provavelmente em 1983 ou pouco depois, que se começaram a realizar latadas no Porto - mas foram rapidamente encaradas como "tradicionais", ou praxisticamente importantes, por via de uma codificação despropositada.
O formato adoptado parece ter sido improvisado com base em referências lidas na diagonal, misturando elementos de épocas diferentes de Coimbra - cortejo de caloiros com latas, como nas latadas antigas de fim de ano em Coimbra, com certeza conhecidas de alguns pelo menos através da referência no In Illo Tempore de Trindade Coelho; calendarização no início do ano lectivo, como nas latadas de imposição de insígnias dos anos 40 a 60, referidas no Código da Praxe (e sua cópia portuense). Os cartazes com piadas não foram adoptados; raramente os caloiros foram caracterizados, e ainda mais raramente essas caracterizações foram além do mais básico. Tratava-se essencialmente dum pretexto para passear os caloiros pelo centro da cidade ("apresentar os caloiros ao Porto") fazendo o máximo de barulho possível.
Por outro lado, surgiu um elemento novo (ou que, em Coimbra, não é anterior aos anos 80): a associação, em muitas faculdades, ao baptismo dos caloiros. Não tendo dados seguros, devo dizer que sempre me pareceu que esta associação se devia a factores práticos: os caloiros devem ser baptizados na Fonte dos Leões e, para as faculdades longe do centro, a latada fornece uma excelente oportunidade de passagem pela Fonte; diga-se que na Faculdade de Ciências nunca houve tal associação (pelo menos antes do séc XXI, ou seja, enquanto a faculdade esteve no seu edifício histórico, na Praça dos Leões) - os caloiros eram baptizados não na latada mas a seguir ao julgamento do seu curso (o que, por outro lado, evoca os "baptismos" do Orfeão dos anos 40, 50 e 60 - meio julgamentos e meio baptismos; mas essa é outra história).

Quando eu fui caloiro (1989/90) as latadas estavam já firmemente implantadas, nos moldes descritos acima. Tipicamente, cada faculdade realizava a sua latada, durante a sua Recepção ao Caloiro (ou seja, nas duas ou três primeiras semanas de aulas; era muito raro praxarem-se caloiros depois disso); e mais tarde havia uma latada da "academia" integrada na Recepção ao Caloiro organizada pela FAP (que se realizava na segunda metade de Novembro).

O que era muito ténue era a associação ao uso de insígnias. Ao contrário das latadas de imposição de insígnias de Coimbra dos anos 40, 50 e 60, nunca as latadas do Porto foram cortejos de novos fitados e novos grelados - nem "novos nabiçados" e "novos sementados"(?).
No entanto, havia quem insistisse em fazer a associação. Lembro-me de ter várias discussões com "engenheiros" que insistiam que as insígnias só se deviam usar a partir da latada. E qual latada: a da faculdade respectiva ou a da "academia"? Em princípio, seria mais lógico usar o critério de uma latada que englobava todas as faculdades; mas isso significaria usar insígnias só a partir do fim de Novembro. Para esses engenheiros (ou pelo menos alguns deles) este não era um problema; antes pelo contrário - era até positivo que, enquanto estivessem a ser praxados, os caloiros não distinguissem a hierarquia dos doutores (o que não os impedia de defender que os veteranos se distinguissem usando capa à futrica como se fossem antigos estudantes...).
E mesmo que a latada escolhida fosse a da faculdade, usá-la como marco de início do uso de insígnias não seria atribuir uma importância excessiva a um costume recente no Porto? (Na altura dessas discussões, uma década ou pouco mais.)
[Adenda, 1/3/2012: lembrei-me de consultar o Código da Praxe de Engenharia, de 1994 - adaptação piorada do Projecto de Código da Praxe do Porto de 1983. E verifiquei que, segundo esse código, "Não pode exercer praxe quem usar Insígnias visíveis" (art. 135º) - regra estranha e que contradiz pelo menos as regras sobre os julgamentos (as fitas dos membros do júri e o grelo do promotor de justiça devem estar visíveis nas respectivas mesas). Verifiquei também (art. 469º) que pelo menos a partir dessa altura o critério de Engenharia para o início do uso de insígnias em cada ano lectivo não era o dia da Latada, e sim o da Serenata da Recepção ao Caloiro (não sendo claro qual - de Engenharia ou da "academia"?). Mas o pior é o resto (v. nota [1]).]

Aí por 1994 o Conselho de Veteranos de Ciências, a que eu pertencia, debruçou-se sobre o assunto. Afinal, em que altura precisa do início do ano lectivo se devia começar a usar as insígnias? Dois pontos prévios:
  1. O problema coloca-se efectivamente, devido à antecipação das insígnias na Queima e à incerteza sobre a passagem de ano. As fitas (por exemplo) são a insígnia do último ano do curso. Impõem-se na Queima do penúltimo ano por antecipação, mas não devem ser usadas depois de terminada a Queima, antes de se ter a certeza de ter passado de ano (e se não se passa de ano não se usam!). Daí o critério coimbrão de a latada não poder ser realizada antes de terminados os exames da época de Outubro (isto é, da época de recurso).[1]
  2. A questão extravasava claramente as competências do Conselho de Veteranos de Ciências (ou do Conselho de Veteranos de qualquer faculdade). Deveria ser tratada pelo Magno Conselho de Veteranos - desde que este funcionasse correctamente. Mas nós conhecíamos o Magno Conselho de Veteranos que existia na prática, o seu modo de funcionamento e o seu bom senso... E, como noutras situações, resolvemos analisar a questão, interpretando a tradição (e não adoptando uma solução qualquer de que nos lembrássemos) e tomando uma decisão que, evidentemente, seria vinculativa apenas no âmbito da Faculdade de Ciências.
Um dos primeiros passos foi consultar alguém a quem muitas vezes colocava dúvidas: um grande académico e praxista dos anos 50 e 60, dux veteranorum nos anos 60, Flávio Serzedello de Oliveira. A resposta que obtive foi que, na sua época, o momento que marcava o início do uso de insígnias era a Abertura Solene do Ano Lectivo da UP; e que esta se realizava, de facto, no início do ano lectivo.[2] Acontece que, nos anos 90, a UP já não realizava uma Abertura Solene do Ano Lectivo.
Assim, decidimos que, à falta de uma Abertura Solene, devíamos considerar o início oficial do ano lectivo: as insígnias poderiam usar-se a partir do primeiro dia de aulas no calendário oficial.[3] Claro que nunca deixámos de realizar a latada (nos moldes portuenses) na Recepção ao Caloiro da Faculdade de Ciências. Mas sem lhe dar um peso praxístico exagerado.





[1] Esta explicação não deveria ser necessária. Mas lembro-me dum detalhe tristemente anedótico numa das discussões que tive nos anos 90 sobre o assunto: um "engenheiro" assegurava-me que o não uso de insígnias entre a Queima e a latada era um sinal de luto pelo dux veteranorum Augusto Soromenho, falecido em 1989...
[Adenda, 1/3/2012: Afinal, este disparate foi consagrado no Código da Praxe de Engenharia (ou talvez tenha tido aí origem?). Diz o art. 469º que as insígnias "deverão ser recolhidas a partir do fim da Queima até às 21 horas e 59 minutos do dia da Serenata da Recepção ao caloiro, do ano lectivo seguinte, isto em memória do falecido Dux Veteranorum Augustus Soromenhus". Patético...]

[2] Curiosamente, segundo informação de António M. Nunes, em Coimbra "tradicionalmente [antes dos anos 40] os estudantes deitavam fitas e grelos no dia da abertura solene das aulas".

[3] Note-se que a nossa época de recurso acabava sempre antes do início das aulas. A nota de um ou outro exame demoraria mais a sair, mas...

quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

Apontamentos sobre a Imposição de Insígnias dos estudantes da Universidade do Porto. Uma tradição pouco conhecida

[Texto publicado originalmente no blogue Virtual Memories (de visita obrigatória regular), de António Manuel Nunes, em 12 de Novembro. Retirei uma pequena apresentação do autor do texto principal (eu) e algumas considerações sobre a Imposição de Insígnias e a latada de Coimbra.]

O blogue solicitou ao Prof. Doutor João Caramalho Domingues um testemunho documentado sobre a cerimónia da Imposição de Insígnias (cartola e bengala, pasta com fitas e grelos). Esta cerimónia estudantil é única no cenário académico português. Com origem na Escola Médico-Cirúrgica do Porto (onde desde finais do século XIX os estudantes usavam pasta de luxo com fitas de seda em amarelo e vermelho), o costume seria retomado e aprofundado pela Universidade do Porto. A partir de ca. 1980 a imposição de insígnias foi apropriada pelos estudantes de quase todos os estabelecimentos de ensino superior públicos e privados, universitários e politécnicos, com sede na Região Norte.

Trata-se, para todos os efeitos, de uma replicação da cerimónia de formatura, realizada antes da conclusão oficial do curso, com a criativa e interessante peculiaridade de acoplar duas tradições autónomas e geograficamente distintas (a festa da pasta, herdada da Médico-Cirúrgica, a cartola e bengala levadas de Coimbra) e de juntar no acto festivo estudantes, famílias, professores do curso e representantes da associação de estudantes e/ou do conselho de veteranos (órgão regulador das tradições académicas).
Na Universidade de Coimbra a festa de Imposição de Insígnias dos estudantes novos grelados e novos fitados (completamente distinta da Imposição de Insígnias a doutores na sala dos actos grandes) acontece não no fim do ano escolar mas no início [no dia da latada].
Em Coimbra a Universidade não realiza formaturas desde 1910, imobilismo que causa a maior perplexidade nas universidades brasileiras. Na festa da Queima das Fitas, tradicionalmente no mês de Maio, os estudantes que concluem cursos desfilam no cortejo alegórico desde a década de 1930 com cartola e bengala de fantasia na cor dos respectivos cursos (excepto as dos veteranos que são cartolões pretos). Como adereços carnavalescos que são, ninguém os designa por insígnias. A cartola e bengala, usam-se desde a manhã do dia do cortejo alegórico até ao último dia da Queima das Fitas, podendo o portador andar com a pasta com as fitas assinadas, mas o que não pode usar é a capa de estudante.
A tradição de bengalar a cartola também era desconhecida em Coimbra (ou pelo menos não existia até à década de 1990). À luz da cultura local seria uma afronta e uma desonra alguém bater na cabeça de um quintanista fitado. Na Universidade do Porto, o costume de desferir bengaladas na cartola poderá constituir uma replicação da tradição dos festejos sanjoaninos (bater com os martelos e alhos porros na cabeça), daí a conotação positiva atribuída a este rito e aceitação generalizada que concita. Admite-se também que possa ter colhido alguma sorte de inspiração nos ritos de cavalaria (rito de investidura), em que um "padrinho" tocava com a espada no ombro do neófito. O que nunca se colocou na cabeça dos estudantes da UP foi o barrete octavado dos professores, praticamente idêntico ao espanhol, que já não se usa.
O subtítulo "pouco conhecida" poderá parecer contraditório. A imposição de insígnias é conhecidíssima na Universidade do Porto e nos estabelecimentos de ensino superior da Região Norte (Douro Litoral, Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro). Há muitos infantários do Douro Litoral onde as directoras e educadoras promovem como festa de despedida das salas dos 5 anos uma replicação da Queima das Fitas da UP, com missa (benção de pastinhas colorinhas em cartão), imposição de cartola e bengala, bengaladas da cartola dadas pela directora do estabelecimento, entrega de diploma enrolado e preso com fitinha (rosa para meninos, azul para meninos) e FRA colectivo e interpretação colectiva do hino do infantário. Em alguns desses infantários as educadoras confeccionam umas capas pretas de licra que as crianças levam vestidas. A Imposição de Insígnias dos estudantes também se faz na Universidade do Minho, estabelecimento onde tem um impacto visual e simbólico arrasador face à singela diplomatura realizada em Setembro, sendo ali a cartola substituída por um tricórnio colorido.
Quando se escreve pouco conhecida referimo-nos ao resto do país.


Caro António,
Vou tentar responder às suas perguntas sobre a Imposição de Insígnias da Queima das Fitas do Porto, centrando-me no formato que tinha na minha Faculdade (Ciências) no meu tempo. As variações de faculdade para faculdade e ao longo dos tempos têm sido consideráveis.

Um pouco de contexto: A Queima das Fitas do Porto começava (e começa) às 0h00 do primeiro domingo de Maio (com uma Monumental Serenata). Umas horas depois, na manhã desse domingo, era (é) celebrada a Benção das Pastas.
Na tarde ainda desse domingo, em cada Faculdade, decorria (e decorre) a Imposição de Insígnias (antes da interrupção dos anos [19]70, a Imposição de Insígnias era numa segunda-feira).
No meu tempo (anos 90) a Imposição de Insígnias da Faculdade de Ciências acontecia no Salão Nobre da Faculdade (hoje conhecido como Salão Nobre da Reitoria e que já na altura era frequentemente usado como Salão Nobre da UP). Neste Salão há um estrado ligeiramente elevado (dois degraus) onde fica a mesa da "presidência" e, lateralmente, algumas filas de cadeiras. Na mesa sentavam-se inicialmente o Presidente do Conselho Directivo, o Dux Facultis e o Presidente e/ou o responsável pelo Dep. Tradições Académicas da Direcção da Associação de Estudantes (ou, em cada caso, um seu representante); nas cadeiras laterais [à direita e à esquerda da mesa da presidência] sentavam-se os professores que iam apadrinhar finalistas. Alguns breves discursos, alusivos à Queima das Fitas, ao finalizar dos cursos e às famílias dos estudantes - havia sempre alusões ao facto de esse dia ser também o Dia da Mãe. Na "plateia" sentavam-se muitos familiares dos finalistas (deve haver por esse país fora inúmeras fotografias e vídeos caseiros destas cerimónias) e colegas. Os finalistas propriamente concentravam-se no corredor junto à porta que dava acesso à zona do estrado (ou mais afastados se ainda faltava muito para serem chamados). Faziam-se as últimas assinaturas nas fitas.
Fazia-se então a imposição da cartola a cada finalista. A ordem era por curso (nos meus primeiros anos por ordem alfabética de curso; mais tarde o Conselho de Veteranos estabeleceu uma ordem baseada na antiguidade dos cursos) e por ordem alfabética dentro de cada curso. O finalista era chamado pelo nome, aproximava-se do estrado, em princípio de capa e batina e transportando a pasta com fitas largas (mas com excepções - havia quem não tivesse capa e batina e insistisse em participar, com resistência do Conselho de Veteranos), um caloiro (de capa e batina, claro!) retirava-lhe a capa e a pasta (recolhendo as fitas?), e o padrinho (em pé no estrado, já não no cadeiral) colocava a cartola na cabeça do finalista, dando-lhe uma a três ligeiras bengaladas na cartola. Aplausos e gritos de incentivo da assistência. No final de cada curso, um dos cartolados puxava um FRA pelos finalistas de...
Uma palavra sobre os padrinhos: sempre tive a ideia de que deviam ser professores. Cada finalista convidaria um professor para ser seu padrinho (claro que os professores mais populares tinham muitos afilhados); frequentemente estes "professores" eram na verdade assistentes. Mas havia excepções: por exemplo, eu cheguei a ser padrinho de uma colega e amiga minha (quando era assistente-estagiário mas noutra universidade, e não foi com certeza nessa qualidade que lhe pus a cartola; pelo menos era licenciado...; tenho ideia que noutras faculdades as excepções eram mais frequentes e mais "excepcionais" - um antigo dux veteranorum, que nunca se licenciou, foi pelo menos uma vez padrinho de cartola, numa faculdade que não a sua).
A seguir à imposição das cartolas vinha a imposição das fitas. Ainda por curso, mas já sem chamada pessoal: os novos fitados de cada curso (de capa e batina!), com a pasta com fitas largas recolhidas e com grelo, dirigiam-se em grupo à mesa, onde estavam os seus padrinhos - cartolados - que lhes retiravam o grelo da pasta (passando então para o pescoço) e tiravam as fitas para fora. FRA pelo novos fitados de...
A seguir, imposição do grelo: semelhante à anterior, com os novos fitados como padrinhos. FRA.
A imposição das nabiças e sementes (insígnias desconhecidas em Coimbra, datando dos anos 60 no Porto, por vezes chamadas "falsas insígnias") era feita depois, à margem da cerimónia.
Entre estas imposições havia também actuações de grupos musicais da
faculdade (Grupo de Folclore, Grupo de Fados, Tuna Feminina, Tuna
masculina). Devia haver também, mas no meu tempo era raro, "serrotes": paródias feitas pelos cartolados de um curso aos professores desse curso (tipicamente insistindo mais nos professores que não davam aulas ao último ano, por motivos óbvios).
Numa faculdade com 9 a 14 licenciaturas e 2000 a 3000 alunos, estamos a falar de uma cerimónia para várias horas, a que muito pouca gente assistiria de início ao fim.
Havia também fotografias de grupo, naturalmente. Há várias gerações de fotografias dos cartolados, ou novos fitados, ou novos grelados, do curso ..., junto à Fonte dos Leões.

Pode ver algumas dos anos 60 no
Álbum de Memórias da UP:
http://sigarra.up.pt/up/web_base.gera_pagina?p_pagina=1001831.

Devo dizer algo sobre a queima do grelo, ou queima das fitas. Por vezes, mas nem sempre, a organização da cerimónia (Dep. Tradições Académicas da AE) lembrava-se de colocar um penico com fogo junto ao estrado, umas vezes para os novos fitados queimarem o seu grelo (muito simbolicamente - passavam apenas o grelo por cima das chamas a caminho da mesa), outras para os finalistas queimarem as suas fitas (simbolicamente, claro).

A confusão fitas/grelo e o facto de nem sempre o penico sequer estar lá mostra a importância com que este pormenor era encarado. Confesso que devo ter alguma "culpa" no desaparecimento definitivo (?) do penico por meados da década.

Repito que noutras faculdades a Imposição das Insígnias teria pormenores diferentes. Lembro-me de ouvir dizer que em Economia os novos fitados não levavam as suas pastas até aos padrinhos; em vez disso, dirigiam-se aos padrinhos que lhas entregavam, com as fitas soltas (os grelos antigos nem deviam aparecer). O facto de as Imposições das várias faculdades decorrerem em paralelo facilitaria o aparecimento de tradições divergentes.
Não tenho também dúvidas de que, mesmo na Faculdade de Ciências, os pormenores seriam diferentes antes dos anos 70 (a começar pelo facto de se fazer a Imposição de Insígnias noutras salas que não o Salão Nobre).

Quanto à história desta tradição:
A Imposição de Insígnias é o resultado de uma evolução da Entrega da Pasta da Escola Médico-Cirúrgica (depois Festa da Pasta nas várias faculdades da UP e Institutos extra-UP). Não tenho qualquer dúvida sobre isso.
O que eu não sei ao certo é quando a cartola e bengala começou a ser imposta ou quando se começou a fazer imposição das fitas e grelo a cada novo fitado ou grelado, em vez de mera passagem simbólica de uma pasta com fitas a um novo fitado e de uma pasta com grelo a um novo grelado (que era o que acontecia nos anos 30).
As pistas cronológicas que posso dar de momento são as seguintes:
- Em 1948 já havia cartolas, pelo menos em Medicina (mas haveria imposição ou entrega?); nesse ano em Engenharia houve entrega simbólica de uma pasta (com fitas) a um novo fitado e em Farmácia houve distribuição das pastas (uma pessoa a distribuir todas as pastas):
http://repositorio-tematico.up.pt/handle/10405/23441
Não vejo aí a ideia de imposição padrinho-afilhado; nem sequer a palavra "imposição".
- Passados 5 anos, em 1953, houve "entrega dos grelos, fitas e cartolas"
na FCUP, e já se usava a expressão "imposição das insígnias":
http://repositorio-tematico.up.pt/handle/10405/24250

Perguntou-me pela origem do costume das bengaladas na cartola.
Sinceramente, não sei quando começou. Não me admiraria se fosse dos anos 80.
Devo acrescentar que, além do padrinho, e depois de a cartola e bengala ter sido imposta, o cartolado vai recebendo bengaladas como cumprimento ao longo da Queima das Fitas (o que é bastante, se se lembrar de que a Imposição das Insígnias é logo no primeiro dia); no cortejo, passados dois dias, muitas cartolas estão já semi-desfeitas.
Perguntou-me também se antes de ser ter adoptado na UP a cartola e a bengala, os finalistas colocavam na cabeça outro tipo de chapéu que ainda não seria a cartola.
Eu diria que não. Há uma fotografia dos finalistas de Medicina de 1939, à futrica, com os chapéus (normalíssimos da época) todos ao contrário. Mas acho forçado ver aí um antecedente da cartola. E quanto a imposição, não me parece...

Três notas finais:
1 - Frequentemente, entre os praxistas, há discussões (verdadeiramente académicas) sobre se a cartola e bengala são insígnias... São impostas na Imposição de Insígnias; mas não são insígnias como as fitas e grelo...
2 - As semelhanças com as cerimónias de "graduation" (assisti a duas em Inglaterra) são inequívocas, particularmente pensando na participação das famílias. A principal diferença é o facto de funcionar por antecipação - o cartolado ainda não acabou o curso.
3 - Não sei quantos estudantes do Porto terão consciência de que na Queima das Fitas de Coimbra não existe Imposição de Insígnias...

Um abraço,
João Caramalho Domingues

segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

Fado de Despedida cantado por Carlos Leal


Apresento aqui um exemplo de um fado gravado por Carlos Leal (sobre este estudante do Liceu Rodrigues de Freitas e da Faculdade de Medicina do Porto dos anos 1920, cantor de fados de Coimbra, serenateiro e vocalista da Tuna Académica do Porto, ver os textos Registos fonográficos de Carlos Leal e Amândio Marques, "Tempos da fadistação..." e Carlos Leal, «O Rouxinol do Ave», neste blogue).

Esta não é a composição mais interessante das que foram gravadas por Carlos Leal, nem a que foi mais popular. Mas é um dos lados do único disco que possuo de Carlos Leal (tenho gravações em cassete de outros discos, que me foram cedidas há uns 15 anos, mas sem autorização para as tornar públicas).

Como se nota facilmente, faltam nesta gravação os últimos segundos. Além disso, como é natural numa gravação de um disco de 78rpm, sem tratamento posterior, há bastante ruído. Mas, ainda assim, é uma voz que nos chega dos anos 1920...



Sobre este fado, uma versão do Fado do Mar de D. José Pais de Almeida e Silva, ver o texto Registos fonográficos de Carlos Leal e Amândio Marques, de José Anjos de Carvalho e António Manuel Nunes.
A letra do original pode ser consultada no texto dos mesmos autores Relação do espólio fonográfico do cantor Almeida d'Eça.

Quanto à letra cantada por Carlos Leal, confesso que ouço as seguintes quadras, ligeiramente diferentes das entendidas pelo Coronel Anjos de Carvalho e António Nunes.

Uma despedida, no dia
em que se vai de verdade,
é choro duma alegria
que se transforma em saudade.

Que tristeza e tormento
sinto no meu coração!
Mocidade, és qual vento,
fugindo sem ter razão.


Agradecimentos: José Moças (Tradisom) e José Navia (Audiorestauración).