quarta-feira, 28 de abril de 2010

"A Mocidade de Hoje"
A introdução no Porto de capa e batina.

[José Pinto de Queiroz Magalhães, Capa e Batina, n.º 1 (20/2/1930), págs. 1-2.]


«Recordar é viver».

Seja-me, pois, lícito evocar a lembrança, para mim saudosa, dum pequenino hebdomadário que se publicou na cidade do Porto no ano de 1883, a que o brilhante escritor António de Lemos, seu antigo colaborador, se referiu já há tempos no jornal «O Tripeiro» e mais recentemente no «Mundo» os ilustres escritores Albino Forjaz de Sampaio e o Dr. João Barreira, hebdomadário do qual foram redactores o signatário destas mal alinhavadas linhas e José Carlos Ehrhardt, hoje, depois de longos anos de labuta médica, facultativo aposentado da Câmara de Sertã.

Era este um jornal académico, que tinha como redacção um modesto quarto de estudante, alcandorado no 2.º andar, frente, do prédio n.º 137 da rua dos Caldeireiros, onde a mocidade académica desse tempo se reunia, numa ânsia fremente de liberdade, disposta a lutar por todas as ideias generosas, num adorável convívio de quasi irmãos.

Era de lá que aos domingos saía para os seus numerosos assinantes, com pontualidade britânica, pelo braço do seu entregador, «A Mocidade de Hoje».

De entre os periódicos académicos que nesta cidade do Porto viram a luz da publicidade por aquele tempo, e não poucos foram eles, recordando-me ainda com enternecida saudade de «A Ideia» de António Ferreira Neves Júnio, «O Jornal de Calíope» de Francisco Xavier de Sousa Pinto Leitão, «A Pérola» de António Rigaud Nogueira, «O Intermezzo» de Eduardo Artayett, «A Alma Nova» de Aureliano Cirne, etc., logrou «A Mocidade de Hoje» ser o que teve mais longa e próspera existência, chegando a publicar-se 32 números que dentro em breve se esgotaram por completo, constituindo por isso hoje esta publicação para os bibliófilos uma colecção rara e ipso facto de apreço.

Teve o aludido periódico a colaboração de brilhantes penas de reputação já feita, que muito concorreram para o prestigiar, tais como o Dr. Júlio de Matos, Dr. José Leite de Vasconcelos, Dr. Alves da Veiga, Jacob Bensabat, Madureira de Vasconcelos, Dr. Artur Cardoso Pereira, Dr. Aureliano Cirne, D. Clorinda de Macedo, etc., constituindo simultaneamente o escrínio onde ficaram arquivadas as primeiras produções de nóveis poetas e prosadores de fino quilate, parte dos quais já hoje são extintos, ocupando os que felizmente ainda vivem, lugares de destaque no seio da família portuguesa.

Entre os primeiros, seja-me permitido proclamar os nomes indelevelmente gravados no coração de todos que os conheceram de António Nobre, Eduardo Coimbra, José de Oliveira Macedo, Henrique José Martins Ferreira, João Zagalo Ilharco, Heliodoro Augusto Salgado, Augusto Geraldes de Mesquita (Gusanto), Guilherme Braga, filho, Hamilton de Araújo, Alexandre Braga, Eduardo Arteyett, Joaquim de Lemos, Dr. Adolfo Arteyett e tantos outros espíritos cintilantes duma élite intelectual que marcou; entre os segundos, o Dr. Augusto Nobre, ilustre professor e ex-reitor da Universidade do Porto, o Dr. José Leite de Vasconcelos, sábio professor da Faculdade de Letras de Lisboa, eminente filólogo e director do museu etnológico português, o Dr. Artur Cardoso Pereira, distinto médico-analista do Mercado Central de Produtos Agrícolas e abalizado professor da Universidade de Lisboa, o Dr. Bernardo Lucas, António de Lemos, Artur Mendes de Magalhães Ramalho, Alberto Baltar (Sereno Hírcio) e muitos mais, que ora me não ocorrem.

Pois foi neste mesmo quarto de estudante e redacção de «A Mocidade de Hoje» que a mesma geração de imberbes moços, como lhe chamou Raúl Sampaio, passados 4 anos realizou as reuniões preparatórias para a substituição das irrisórias casacas por um uniforme académico mais consentâneo com o espírito moderno, nos actos a realizar.

Ali apareceram vários modelos de uniformes com desenhos do ilustre pintor visiense José de Almeida e Silva, então aluno da Academia de Belas-Artes e redactor do «Charivari», optando-se alfim pela capa e batina, em virtude das tradições que andavam ligadas.

Depois de devidamente aprovada pelo Conselho da Escola Médica-Cirúrgica, onde a defendeu com entrain o célebre Urbino de Freitas, foi enfim esta autorizada, embora apenas facultativamente, sendo pela primeira vez usada no ano de 1889 pelos alunos da Escola Médica-Cirúrgica do Porto, sendo os estudantes do 3º ano médico dessa referida data quem, para dar o exemplo, se antecipou a romper com o preconceito citadino, envergando pela primeira vez no Porto, roçando pelo escândalo, o tradicional uniforme académico da velha universidade coimbrã.

Entre esses terceiranistas reformistas, contam-se José de Oliveira Serrão de Azevedo, Aníbal Barbosa de Pinho Lousada, Scipião José de Carvalho, José Jorge Pereira, Francisco da Silva Garcia, João Leite de Castro, Francisco Xavier Couto de Amorim Novais e o autor desta pequenina memória - sem dúvida um dos mais entusiastas apóstolos de tal ideia.

José Pinto de Queiroz Magalhães
Médico e Professor da Escola Normal Primária do Porto.

1 comentário:

  1. Antes de mais nada que agradecer ao Professor José Magalhães pela pesquisa e menção a um dos acadêmicos o jovem António Rigaud Nogueira. Ele tem história ligada à minha família Nogueira no Brasil e fiz pesquisa sobre sua vida na cidade do Porto chegando até este blog. Fiquei sabendo então que Rigaud havia produzido uma revista literária denominada de "A Pérola". Ocorre que, para minha felicidade localizei um encadernado contendo 12 exemplares dessa revista publicada em 1886 e mais rápido possível o adquiri. Assim enriqueci sobremaneira o que já sabia acerca de Rigaud Nogueira, engenheiro de obras e arquiteto formado pela Universidade do Porto, onde também acabou fazendo parte do corpo de professores. Muito obrigado sr. José, pois sem sua informação nada disso teria sido possível.
    Marcos Nogueira.

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