quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Apontamentos sobre a Imposição de Insígnias dos estudantes da Universidade do Porto. Uma tradição pouco conhecida

[Texto publicado originalmente no blogue Virtual Memories (de visita obrigatória regular), de António Manuel Nunes, em 12 de Novembro. Retirei uma pequena apresentação do autor do texto principal (eu) e algumas considerações sobre a Imposição de Insígnias e a latada de Coimbra.]

O blogue solicitou ao Prof. Doutor João Caramalho Domingues um testemunho documentado sobre a cerimónia da Imposição de Insígnias (cartola e bengala, pasta com fitas e grelos). Esta cerimónia estudantil é única no cenário académico português. Com origem na Escola Médico-Cirúrgica do Porto (onde desde finais do século XIX os estudantes usavam pasta de luxo com fitas de seda em amarelo e vermelho), o costume seria retomado e aprofundado pela Universidade do Porto. A partir de ca. 1980 a imposição de insígnias foi apropriada pelos estudantes de quase todos os estabelecimentos de ensino superior públicos e privados, universitários e politécnicos, com sede na Região Norte.

Trata-se, para todos os efeitos, de uma replicação da cerimónia de formatura, realizada antes da conclusão oficial do curso, com a criativa e interessante peculiaridade de acoplar duas tradições autónomas e geograficamente distintas (a festa da pasta, herdada da Médico-Cirúrgica, a cartola e bengala levadas de Coimbra) e de juntar no acto festivo estudantes, famílias, professores do curso e representantes da associação de estudantes e/ou do conselho de veteranos (órgão regulador das tradições académicas).
Na Universidade de Coimbra a festa de Imposição de Insígnias dos estudantes novos grelados e novos fitados (completamente distinta da Imposição de Insígnias a doutores na sala dos actos grandes) acontece não no fim do ano escolar mas no início [no dia da latada].
Em Coimbra a Universidade não realiza formaturas desde 1910, imobilismo que causa a maior perplexidade nas universidades brasileiras. Na festa da Queima das Fitas, tradicionalmente no mês de Maio, os estudantes que concluem cursos desfilam no cortejo alegórico desde a década de 1930 com cartola e bengala de fantasia na cor dos respectivos cursos (excepto as dos veteranos que são cartolões pretos). Como adereços carnavalescos que são, ninguém os designa por insígnias. A cartola e bengala, usam-se desde a manhã do dia do cortejo alegórico até ao último dia da Queima das Fitas, podendo o portador andar com a pasta com as fitas assinadas, mas o que não pode usar é a capa de estudante.
A tradição de bengalar a cartola também era desconhecida em Coimbra (ou pelo menos não existia até à década de 1990). À luz da cultura local seria uma afronta e uma desonra alguém bater na cabeça de um quintanista fitado. Na Universidade do Porto, o costume de desferir bengaladas na cartola poderá constituir uma replicação da tradição dos festejos sanjoaninos (bater com os martelos e alhos porros na cabeça), daí a conotação positiva atribuída a este rito e aceitação generalizada que concita. Admite-se também que possa ter colhido alguma sorte de inspiração nos ritos de cavalaria (rito de investidura), em que um "padrinho" tocava com a espada no ombro do neófito. O que nunca se colocou na cabeça dos estudantes da UP foi o barrete octavado dos professores, praticamente idêntico ao espanhol, que já não se usa.
O subtítulo "pouco conhecida" poderá parecer contraditório. A imposição de insígnias é conhecidíssima na Universidade do Porto e nos estabelecimentos de ensino superior da Região Norte (Douro Litoral, Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro). Há muitos infantários do Douro Litoral onde as directoras e educadoras promovem como festa de despedida das salas dos 5 anos uma replicação da Queima das Fitas da UP, com missa (benção de pastinhas colorinhas em cartão), imposição de cartola e bengala, bengaladas da cartola dadas pela directora do estabelecimento, entrega de diploma enrolado e preso com fitinha (rosa para meninos, azul para meninos) e FRA colectivo e interpretação colectiva do hino do infantário. Em alguns desses infantários as educadoras confeccionam umas capas pretas de licra que as crianças levam vestidas. A Imposição de Insígnias dos estudantes também se faz na Universidade do Minho, estabelecimento onde tem um impacto visual e simbólico arrasador face à singela diplomatura realizada em Setembro, sendo ali a cartola substituída por um tricórnio colorido.
Quando se escreve pouco conhecida referimo-nos ao resto do país.


Caro António,
Vou tentar responder às suas perguntas sobre a Imposição de Insígnias da Queima das Fitas do Porto, centrando-me no formato que tinha na minha Faculdade (Ciências) no meu tempo. As variações de faculdade para faculdade e ao longo dos tempos têm sido consideráveis.

Um pouco de contexto: A Queima das Fitas do Porto começava (e começa) às 0h00 do primeiro domingo de Maio (com uma Monumental Serenata). Umas horas depois, na manhã desse domingo, era (é) celebrada a Benção das Pastas.
Na tarde ainda desse domingo, em cada Faculdade, decorria (e decorre) a Imposição de Insígnias (antes da interrupção dos anos [19]70, a Imposição de Insígnias era numa segunda-feira).
No meu tempo (anos 90) a Imposição de Insígnias da Faculdade de Ciências acontecia no Salão Nobre da Faculdade (hoje conhecido como Salão Nobre da Reitoria e que já na altura era frequentemente usado como Salão Nobre da UP). Neste Salão há um estrado ligeiramente elevado (dois degraus) onde fica a mesa da "presidência" e, lateralmente, algumas filas de cadeiras. Na mesa sentavam-se inicialmente o Presidente do Conselho Directivo, o Dux Facultis e o Presidente e/ou o responsável pelo Dep. Tradições Académicas da Direcção da Associação de Estudantes (ou, em cada caso, um seu representante); nas cadeiras laterais [à direita e à esquerda da mesa da presidência] sentavam-se os professores que iam apadrinhar finalistas. Alguns breves discursos, alusivos à Queima das Fitas, ao finalizar dos cursos e às famílias dos estudantes - havia sempre alusões ao facto de esse dia ser também o Dia da Mãe. Na "plateia" sentavam-se muitos familiares dos finalistas (deve haver por esse país fora inúmeras fotografias e vídeos caseiros destas cerimónias) e colegas. Os finalistas propriamente concentravam-se no corredor junto à porta que dava acesso à zona do estrado (ou mais afastados se ainda faltava muito para serem chamados). Faziam-se as últimas assinaturas nas fitas.
Fazia-se então a imposição da cartola a cada finalista. A ordem era por curso (nos meus primeiros anos por ordem alfabética de curso; mais tarde o Conselho de Veteranos estabeleceu uma ordem baseada na antiguidade dos cursos) e por ordem alfabética dentro de cada curso. O finalista era chamado pelo nome, aproximava-se do estrado, em princípio de capa e batina e transportando a pasta com fitas largas (mas com excepções - havia quem não tivesse capa e batina e insistisse em participar, com resistência do Conselho de Veteranos), um caloiro (de capa e batina, claro!) retirava-lhe a capa e a pasta (recolhendo as fitas?), e o padrinho (em pé no estrado, já não no cadeiral) colocava a cartola na cabeça do finalista, dando-lhe uma a três ligeiras bengaladas na cartola. Aplausos e gritos de incentivo da assistência. No final de cada curso, um dos cartolados puxava um FRA pelos finalistas de...
Uma palavra sobre os padrinhos: sempre tive a ideia de que deviam ser professores. Cada finalista convidaria um professor para ser seu padrinho (claro que os professores mais populares tinham muitos afilhados); frequentemente estes "professores" eram na verdade assistentes. Mas havia excepções: por exemplo, eu cheguei a ser padrinho de uma colega e amiga minha (quando era assistente-estagiário mas noutra universidade, e não foi com certeza nessa qualidade que lhe pus a cartola; pelo menos era licenciado...; tenho ideia que noutras faculdades as excepções eram mais frequentes e mais "excepcionais" - um antigo dux veteranorum, que nunca se licenciou, foi pelo menos uma vez padrinho de cartola, numa faculdade que não a sua).
A seguir à imposição das cartolas vinha a imposição das fitas. Ainda por curso, mas já sem chamada pessoal: os novos fitados de cada curso (de capa e batina!), com a pasta com fitas largas recolhidas e com grelo, dirigiam-se em grupo à mesa, onde estavam os seus padrinhos - cartolados - que lhes retiravam o grelo da pasta (passando então para o pescoço) e tiravam as fitas para fora. FRA pelo novos fitados de...
A seguir, imposição do grelo: semelhante à anterior, com os novos fitados como padrinhos. FRA.
A imposição das nabiças e sementes (insígnias desconhecidas em Coimbra, datando dos anos 60 no Porto, por vezes chamadas "falsas insígnias") era feita depois, à margem da cerimónia.
Entre estas imposições havia também actuações de grupos musicais da
faculdade (Grupo de Folclore, Grupo de Fados, Tuna Feminina, Tuna
masculina). Devia haver também, mas no meu tempo era raro, "serrotes": paródias feitas pelos cartolados de um curso aos professores desse curso (tipicamente insistindo mais nos professores que não davam aulas ao último ano, por motivos óbvios).
Numa faculdade com 9 a 14 licenciaturas e 2000 a 3000 alunos, estamos a falar de uma cerimónia para várias horas, a que muito pouca gente assistiria de início ao fim.
Havia também fotografias de grupo, naturalmente. Há várias gerações de fotografias dos cartolados, ou novos fitados, ou novos grelados, do curso ..., junto à Fonte dos Leões.

Pode ver algumas dos anos 60 no
Álbum de Memórias da UP:
http://sigarra.up.pt/up/web_base.gera_pagina?p_pagina=1001831.

Devo dizer algo sobre a queima do grelo, ou queima das fitas. Por vezes, mas nem sempre, a organização da cerimónia (Dep. Tradições Académicas da AE) lembrava-se de colocar um penico com fogo junto ao estrado, umas vezes para os novos fitados queimarem o seu grelo (muito simbolicamente - passavam apenas o grelo por cima das chamas a caminho da mesa), outras para os finalistas queimarem as suas fitas (simbolicamente, claro).

A confusão fitas/grelo e o facto de nem sempre o penico sequer estar lá mostra a importância com que este pormenor era encarado. Confesso que devo ter alguma "culpa" no desaparecimento definitivo (?) do penico por meados da década.

Repito que noutras faculdades a Imposição das Insígnias teria pormenores diferentes. Lembro-me de ouvir dizer que em Economia os novos fitados não levavam as suas pastas até aos padrinhos; em vez disso, dirigiam-se aos padrinhos que lhas entregavam, com as fitas soltas (os grelos antigos nem deviam aparecer). O facto de as Imposições das várias faculdades decorrerem em paralelo facilitaria o aparecimento de tradições divergentes.
Não tenho também dúvidas de que, mesmo na Faculdade de Ciências, os pormenores seriam diferentes antes dos anos 70 (a começar pelo facto de se fazer a Imposição de Insígnias noutras salas que não o Salão Nobre).

Quanto à história desta tradição:
A Imposição de Insígnias é o resultado de uma evolução da Entrega da Pasta da Escola Médico-Cirúrgica (depois Festa da Pasta nas várias faculdades da UP e Institutos extra-UP). Não tenho qualquer dúvida sobre isso.
O que eu não sei ao certo é quando a cartola e bengala começou a ser imposta ou quando se começou a fazer imposição das fitas e grelo a cada novo fitado ou grelado, em vez de mera passagem simbólica de uma pasta com fitas a um novo fitado e de uma pasta com grelo a um novo grelado (que era o que acontecia nos anos 30).
As pistas cronológicas que posso dar de momento são as seguintes:
- Em 1948 já havia cartolas, pelo menos em Medicina (mas haveria imposição ou entrega?); nesse ano em Engenharia houve entrega simbólica de uma pasta (com fitas) a um novo fitado e em Farmácia houve distribuição das pastas (uma pessoa a distribuir todas as pastas):
http://repositorio-tematico.up.pt/handle/10405/23441
Não vejo aí a ideia de imposição padrinho-afilhado; nem sequer a palavra "imposição".
- Passados 5 anos, em 1953, houve "entrega dos grelos, fitas e cartolas"
na FCUP, e já se usava a expressão "imposição das insígnias":
http://repositorio-tematico.up.pt/handle/10405/24250

Perguntou-me pela origem do costume das bengaladas na cartola.
Sinceramente, não sei quando começou. Não me admiraria se fosse dos anos 80.
Devo acrescentar que, além do padrinho, e depois de a cartola e bengala ter sido imposta, o cartolado vai recebendo bengaladas como cumprimento ao longo da Queima das Fitas (o que é bastante, se se lembrar de que a Imposição das Insígnias é logo no primeiro dia); no cortejo, passados dois dias, muitas cartolas estão já semi-desfeitas.
Perguntou-me também se antes de ser ter adoptado na UP a cartola e a bengala, os finalistas colocavam na cabeça outro tipo de chapéu que ainda não seria a cartola.
Eu diria que não. Há uma fotografia dos finalistas de Medicina de 1939, à futrica, com os chapéus (normalíssimos da época) todos ao contrário. Mas acho forçado ver aí um antecedente da cartola. E quanto a imposição, não me parece...

Três notas finais:
1 - Frequentemente, entre os praxistas, há discussões (verdadeiramente académicas) sobre se a cartola e bengala são insígnias... São impostas na Imposição de Insígnias; mas não são insígnias como as fitas e grelo...
2 - As semelhanças com as cerimónias de "graduation" (assisti a duas em Inglaterra) são inequívocas, particularmente pensando na participação das famílias. A principal diferença é o facto de funcionar por antecipação - o cartolado ainda não acabou o curso.
3 - Não sei quantos estudantes do Porto terão consciência de que na Queima das Fitas de Coimbra não existe Imposição de Insígnias...

Um abraço,
João Caramalho Domingues

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Fado de Despedida cantado por Carlos Leal


Apresento aqui um exemplo de um fado gravado por Carlos Leal (sobre este estudante do Liceu Rodrigues de Freitas e da Faculdade de Medicina do Porto dos anos 1920, cantor de fados de Coimbra, serenateiro e vocalista da Tuna Académica do Porto, ver os textos Registos fonográficos de Carlos Leal e Amândio Marques, "Tempos da fadistação..." e Carlos Leal, «O Rouxinol do Ave», neste blogue).

Esta não é a composição mais interessante das que foram gravadas por Carlos Leal, nem a que foi mais popular. Mas é um dos lados do único disco que possuo de Carlos Leal (tenho gravações em cassete de outros discos, que me foram cedidas há uns 15 anos, mas sem autorização para as tornar públicas).

Como se nota facilmente, faltam nesta gravação os últimos segundos. Além disso, como é natural numa gravação de um disco de 78rpm, sem tratamento posterior, há bastante ruído. Mas, ainda assim, é uma voz que nos chega dos anos 1920...



Sobre este fado, uma versão do Fado do Mar de D. José Pais de Almeida e Silva, ver o texto Registos fonográficos de Carlos Leal e Amândio Marques, de José Anjos de Carvalho e António Manuel Nunes.
A letra do original pode ser consultada no texto dos mesmos autores Relação do espólio fonográfico do cantor Almeida d'Eça.

Quanto à letra cantada por Carlos Leal, confesso que ouço as seguintes quadras, ligeiramente diferentes das entendidas pelo Coronel Anjos de Carvalho e António Nunes.

Uma despedida, no dia
em que se vai de verdade,
é choro duma alegria
que se transforma em saudade.

Que tristeza e tormento
sinto no meu coração!
Mocidade, és qual vento,
fugindo sem ter razão.


Agradecimentos: José Moças (Tradisom) e José Navia (Audiorestauración).

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Registos fonográficos de Carlos Leal e Amândio Marques

Por José Anjos de Carvalho e António Manuel Nunes
[versão ligeiramente revista de um texto publicado originalmente em Junho de 2006 no blogue Guitarra de Coimbra I, de Octávio Sérgio]

Uma Justificação
Uma interrogação sobre o “desconhecido” Carlos Leal, presente na memória descritiva da solfa de “Fado Alentejano” gravado pelo estudante da Fac. de Medicina da Universidade de Coimbra Armando Goes no ocaso da década de 1920, motivou um comentário esclarecedor do Dr. João Caramalho Domingues no Blogue Guitarra de Coimbra I de 20.12.2005, seguido de novas colaborações em 26.12.2005 [1, 2, 3] e 08.01.2006 [1, 2].
De Carlos Leal se navegou para o guitarrista Amândio Marques (1903-1987), cujo nome já havia sido aflorado por Armando Luís de Carvalho Homem em texto de 1999.
Os pedidos de ajuda estenderam-se à Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra no Porto (Dr. António Moniz Palme), à Casa da Beira Alta no Porto (Dra. Maria Fernanda Braga da Cruz), bem como aos arquivos da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Advogados.
Por sugestão da Dra. Maria Fernanda Braga da Cruz (inexcedível na abertura dos arquivos da Casa da Beira Alta) aguardámos entre Janeiro e Junho de 2006 uma hipótese de contacto com o filho do falecido guitarrista Amândio Marques, que acabaria por se revelar frustrada.
Gorada a primeira tentativa de contactos, optámos pela edição de uma primeira versão deste estudo no Blogue Guitarra de Coimbra I, postado em 28.6.2006, tecido e urdido apenas com os dados a que foi possível aceder.
O acesso ao grosso da obra fonográfica de Carlos Leal fica a dever-se à generosidade do Dr. João Caramalho Domingues, estudioso e coleccionador que em meados da década de 1990 obteve antigos documentos sonoros relativos ao Porto académico graças a contactos havidos com Paul Vernon. Tais contactos nasceram da necessidade de introduzir correcções nos textos que Paul Vernon autografou para as reedições Heritage/Tradisom. Infelizmente, nos traslados sonoros vindos de Londres em cassete, não houve oportunidade de anotar as autorias impressas nas etiquetas dos discos de 78 rpm gravados na década de 1920 e sem este elemento não nos é possível progredir com segurança numa matéria tão fugaz, considerada mais do domínio do património industrial e menos da arquivística sonora.

I – Notas Biográficas
Carlos Alberto Leal
, filho de Alberto Hermano Fernandes Leal e de Laura do Patrocínio e Silva nasceu em Vila do Conde a 22 de Agosto de 1905. Fez os seus estudos secundários no Liceu Rodrigues de Freitas, da cidade do Porto. Matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, então instalada no Hospital de Santo António (propriedade da Santa Casa da Misericórdia) no ano lectivo de 1924-1925. Terminou o curso de Medicina em 4 de Novembro de 1933, conforme certidão apresentada à Ordem dos Médicos. Exerceu Medicina, com consultório na Rua Mouzinho da Silveira, n.º 72 – 2.º -Porto, tendo prestado colaboração à Faculdade de Medicina da UP, instituição onde trabalhou ao lado de um antigo colega de liceu, de curso e de serenatas, Luís Canto Moniz. Faleceu em 11 de Abril de 1960.
Filho de um cantor e músico, Carlos Leal foi solista de relevo em serenatas académicas do Liceu e da Universidade do Porto, com assídua colaboração nos organismos estudantis do seu tempo (Orfeão e Tuna), récitas e eventos musicais.
Era um tenor operático que conhecia e dominava o “estilo de Coimbra” mais em voga na década de 1920. Apresenta uma fonética cuidada que procura ir de encontro à “pronúncia de Coimbra” e, como cantor, supera sem favor os desempenhos de José Dias e António Batoque. Excluindo “Canção das Rendilheiras de Vila do Conde”, uma canção com refrão mais próximo dos reportórios de tuna, teatro e salão burguês, a obra gravada por Carlos Leal radica esmagadoramente em espécimes estróficos, ao tempo os mais trauteáveis e apreciados pelo grande público e os mais fáceis de improvisar numa serenata nocturna de cortejamento (não estavam associados a arranjos instrumentais individualizadores nem exigiam esforço técnico-criativo ao instrumentista).
As quadras cantadas, à semelhança do que se praticava em Coimbra e nos bailes populares provinciais de arraial e amanho do milho, são por vezes de fraca densidade semântico-literária. Algumas eram cantadas em diferentes melodias como a tétrica “A noite é negra” e “Passam-se noites inteiras” e as coplas vulgarizadas em “O Meu Fado” de Armando Goes (“Nunca chores junto à nora”), que dizem da morbidez soturna marcada pelos referentes estéticos em que reviam ultra-românticos e decadentistas.

Amândio Ferreira Marques nasceu em Mangualde no dia 3 de Julho de 1903. Fez os estudos secundários no Liceu Rodrigues de Freitas, da cidade do Porto, tendo sido colega, amigo e companheiro de serenatas de Carlos Leal, José Pais da Silva, bem como do jovem transmontano Jorge Alcino de Morais “Xabregas” que depois estudou Ciências e Matemática em Coimbra e se dedicou ao toque da guitarra.
Na segunda metade da década de vinte Amândio Marques frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, com formatura concluída em 21 de Julho de 1930, precisamente no mesmo ano do guitarrista Afonso de Sousa e do barítono Armando Goes. Inscreveu-se na Ordem dos Advogados em 24 de Julho de 1931. Tudo indica que realizou o estágio profissional no Porto, cidade onde teve banca de advogado até falecer em 1987. Distinguiu-se como sócio fundador e animador cultural da Casa da Beira Alta no Porto, instituição que guarda a sua ficha de sócio, um retrato e um busto em bronze.
Nos tempos do liceu e também enquanto estudante de Coimbra, Amândio Marques afirmou-se com executante de guitarra. Todavia o seu nome não consta dos anais da “Década de Oiro” da Canção de Coimbra. Em 1927 promoveu um encontro entre cultores de Canção de Coimbra activos no Porto e em Coimbra. Num “in memoriam” a Carlos Leal, publicado nos inícios da década de 1960 (Carlos Leal. O Rouxinol do Ave. Porto: Porto Académico, 1962, 44-46), Amândio Marques informa que esteve ligado a um grupo activo no Liceu Rodrigues de Freitas onde apareciam habitualmente Carlos Leal, Luís Canto Moniz, Josué da Silva e o próprio Amândio Marques. Em fase posterior, a formação viu-se enriquecida com os préstimos de candidatos a tocadores, poetas e cantores como Francisco Fernandes (g), Alberto de Serpa, Pereira Leite (g), Carlos Alberto de Carvalho, Alberto do Carmo Machado, o Sargento Cadete, António Abrantes e Jorge Alcino de Morais. Este ciclo artístico liceal deve ter ocorrido entre ca. 1922-1925.
Dos guitarristas mais conhecidos no Liceu do Porto na primeira metade da década de 1920, Amândio Marques cita expressamente Aires Pinto Ribeiro, Ernesto Brandão, Cícero de Azevedo, Manuel Pereira Leite e Amândio Marques. Como cantores brilhavam e disputavam as palmas Carlos Leal e José Taveira, seguindo-se-lhes Mário Delgado Viemonte, Cabral Borges e Carlos Alberto de Carvalho.
Amândio Marques é na actualidade um guitarrista totalmente esquecido, não obstante ter gravado discos com o cantor Carlos Leal, e ainda matrizes fonográficas de guitarradas de sua própria autoria. Não se sabe se desempenhou alguma influência artística nos meios académicos portuenses após 1930, nem há respostas para o “apagamento” da sua vida e obra em Coimbra. Tudo indica que nos anos de Coimbra Amândio Marques continuou a manter o seu “Trio de Guitarras e Viola”, fruto de deslocações periódicas à cidade do Porto.
Outro guitarrista com passagem liceal pelo Porto, chegado a Coimbra em 1925, foi Jorge Alcino de Morais “Xabregas”. Xabregas manteve os contactos com os antigos colegas de Liceu e em 1929 efectuou gravações com alguns dos instrumentistas referidos no artigo dado à estampa por Amândio Marques em 1962. As matrizes fonográficas da sessão Xabregas nunca chegaram a ser comercializadas e em declarações de 15.4.1989 este guitarrista não conseguiu especificar os nomes dos tocadores seus “amigos da Universidade do Porto” que lhe prestaram colaboração em estúdio.
Em termos de guitarra de acompanhamento, Amândio Marques revela-se um executante superior a Xabregas, claramente posicionado acima da mediocridade reinante na década de 1920. O acompanhamento de “Canção das Rendilheiras”, com as guitarras em segunda voz muito cantada, supera com manifesto sucesso o tradicional toque por acordes de tónica e dominante. O Trio de Guitarras e Viola presente nos diversos discos de Carlos Leal revela assimilações da técnica de Artur Paredes em termos de trabalho de harmonização. Ao tempo, a formação duas guitarras mais um violão de cordas de aço não era uma prática vulgar. Inferiores aos desempenhos do trio liderado por Amândio Marques nos discos de Carlos Leal, são os desempenhos rudimentaríssimos audíveis nos discos de José Paradela de Oliveira, José Dias, António Batoque, António Menano e Elísio de Matos. Estamos a falar de nomes habitualmente exaltados como Flávio Rodrigues (voz António Menano), Francisco da Silveira Morais (voz Paradela de Oliveira) ou mesmo Paulo de Sá (vozes José Dias e Elísio de Matos).
José Pais da Silva foi aluno da Universidade do Porto, executante de violão de cordas de aço e membro da Tuna Académica do Porto. Parece ser autor de alguns dos temas gravados em disco por Carlos Leal, embora não possamos especificar quais com inteira segurança.
Sobre Francisco Fernandes, executante de segunda guitarra nas gravações de Carlos Leal, não existem informações disponíveis. Pelo “in memoriam” que Amândio Marques dedicou a Carlos Leal, sabe-se que à entrada da década de 1960 Francisco Fernandes exercia Medicina em Moçambique.
O presente levantamento contém avultadas omissões e lacunas. Não foi possível aceder a qualquer dos discos onde Amândio Marques toca a solo as suas guitarradas, pelo que nos limitamos a um arrolamento sumário. No que a Carlos Leal respeita, também nos faltou o acesso às matrizes fonográficas. As cópias facultadas pelo Dr. João Caramalho Domingues permitem-nos confrontar as melodias com outras conhecidas e transcrever, com alguma fiabilidade, as letras cantadas. Sem os discos não é possível visualizar as etiquetas e através delas colher os dados relativos às identificações autorais.

II – Gravações de Amândio Marques
Nos finais da década de 1920, entre 1927 e 1929, Amândio Marques gravou na editora Parlophone quatro faixas sonoras. Contou com a colaboração de Francisco Fernandes (2ª guitarra) e de José Pais da Silva (violão de cordas de aço).
Não conhecemos estas guitarradas, nem tampouco lográmos aceder aos discos.

Disco de 78 rpm Parlophone, B 33.016
98000 - Fado em Ré Menor
98001 - Variações em Lá Maior

Disco de 78 rpm Parlophone, B 33.017
98005 - Fado em Dó Sustenido Menor
98009 - Capricho

De outros colegas de Carlos Leal/Amândio Marques activos no Porto académico na década de 1920, importa escalpelizar:
  • Ernesto BRANDÃO, guitarrista, com pelo menos um disco gravado ca. 1927-1929, acompanhado em violão por José TAVEIRA: (78 pm Parlophone, B 33.006) “Fado em Sol Maior” e “Fado em Ré Menor”;
  • José PAIS DA SILVA e José TAVEIRA, com pelo menos dois discos gravados na Parlophone, ca. 1927-1929, contendo solos de dois violões: “Pas de Quatre” e “Padre Nuestro” (Parlophone, B 33.004); “Cantares Populares” e “Amanhecendo” (Parlophone, B 33.005).


III – DISCOGRAFIA DE CARLOS LEAL
A vida é negra, tão negra
Disco Parlophone, B 33.300
98028 – FADO ALENTEJANO (Fechei a porta à desgraça)
98029 – FADO DA DESCRENÇA (Eu não creio por não crer)

Disco Parlophone, B 33.301
98030 – UM FADO (Passam-se noites inteiras)
98032 – FADO DA NOSTALGIA (A vida é negra, tão negra)

Disco Parlophone, B 33.302
980…– FADO VISÃO (…?...)
980… – UMA CANÇÃO (…?...)

Disco Parlophone, B 33.303
98020 – MINHA MÃE (Minha mãe é pobrezinha)
98021 – FADO DE DESPEDIDA (A despedida no dia)

Disco Parlophone, B 33.308
98022 – MELANCOLIA (A saudade faz lembrar)
98023 – CANÇÃO DAS RENDILHEIRAS DE VILA DO CONDE (Rendilheiras que teceis)

IV – LETRAS GRAVADAS POR CARLOS LEAL

FADO ALENTEJANO
Incipit: Fechei a porta à desgraça
Música: Armando do Carmo Goes (1906-1967)
Letra: 1.ª quadra popular (séc. XIX); 2.ª quadra de João da Silva Tavares (1893-1964)
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920

I
Fechei a porta à desgraça,
Entrou-me pela janela;
Quem nasceu para a desgraça
(Ai2) Não pode fugir a ela!

II
Tanto a desgraça me alcança,
Que já me sinto cansado
Da vida que não se cansa
(Ai2) De me fazer desgraçado.


Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 3.º verso, canta-se o 2.º dístico e repete-se o 2.º dístico.
Espécime gravado por Carlos Leal entre 1928-1929, acompanhado pelo Trio de Guitarras e Viola, constituído por Amândio Marques/Francisco Fernandes (gg) e Pais da Silva (v) no 78 rpm Parlophone B, B 33.300. A autoria da música é de Armando Goes, que a gravou em Outubro de 1928, acompanhado à guitarra por Albano de Noronha e Afonso de Sousa (Disco His Master’s Voice, E.Q. 192).
A 1.ª quadra é popular e encontra-se em variadíssimos cancioneiros, tais como “Mil Trovas Populares Portuguesas” e em António Tomás Pires, Leite de Vasconcelos e outros. A 2.ª quadra é do poeta João Silva Tavares, e encontra-se no livro “Quem Canta”, editado em 1923.
Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
Tema gravado por António Bernardino em 1966, acompanhado à guitarra por António Portugal e Manuel Borralho e, à viola, por Rui Pato (EP Fados de Coimbra, Alvorada AEP 60817); está disponível em long play (LP Coimbra, Alvorada ALV-04-19 e LP Aquila, AQU 02-49) e em compact disc (CD N.º 45/O Melhor dos Melhores, Movieplay, MM 37.045 e CD Nº 30/Clássicos da Renascença, Movieplay, MOV. 31.030).
Gravado também por Victor Silva, em 1986, do Grupo Académico Serenata, do Porto: LP “Fados de Coimbra”, Orfeu, LPP 44.
Com um outro título e uma outra letra, foi gravado por Raul Dinis, acompanhado à guitarra por Jorge Gomes e António Ralha e, à viola, por Manuel Dourado, intitulado Um Fado (Ó vida, que mais queres), letra da autoria do cantor (CD “Coimbra de Sempre”, Discossete, DDD CD 971000, de 1993).

FADO DA DESCRENÇA
Incipit: Eu não creio por não crer
Música: autor não identificado
Letra: autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920

I
Eu não creio por não crer,
Queria crer mas não consigo
E assim eu passo a descrer,
É para crer só contigo.

II
Podem descrente chamar
A quem pensa como eu…
Há estrelas a brilhar
Que não se vêem do céu.


Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Gravado por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0300, master 98029). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946. Desconhecemos se mais alguém teria gravado este fado.

UM FADO
Incipit: Passam-se noites inteiras
Música: autor não identificado
Letra: autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920

I
Passam-se noites inteiras
Que me não posso deitar
E a lua já tem olheiras
De tanto me alumiar.

II
Já o luar, de mansinho,
No vento reza de dor,
Anda a pintar de branquinho
Na casa do meu amor.


Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Gravado por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0301, master 98030). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
Uma variante (Eu passo noites inteiras) da 1.ª quadra é cantada por Fernando Gomes Alves (EP Ofir, AM 4.068, 1966) no chamado Fado Antigo (Eu passo noites inteiras), cuja música é a do conhecido Fado Espanhol (Gosto de cantar o fado) gravado por António Menano. No 2.º verso da 2.ª quadra admitimos que a letra cantada por Carlos Leal não seja exactamente o que nos pareceu continuar a ouvir após múltiplas re-audições de estudo. Admitimos que este UM FADO possa ser o espécime que João Falcato diz ter ouvido Manuel Julião entoar na Sé Velha na Primavera/Verão de 1943 (Coimbra dos Doutores. Coimbra: Coimbra Editora, 1957, pág. 166).
Desconhecemos se mais alguém gravou este espécime.

FADO DA NOSTALGIA
Incipit: A vida é negra, tão negra
Música: autor não identificado
Letra: 1.ª quadra popular; 2.ª quadra de autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1930

I
A vida é negra, tão negra,
Como a noite nos pinhais
Mas é nas noites mais negras
(Ai2) Que as estrelas brilham mais.


II
Nesta vida de amargura,
Há tanta contradição…
Fumo negro sobe ao ar
(Ai2) Água pura cai no chão.


Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Gravado por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0301, master 98032). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
A 1.ª quadra (A vida é negra, tão negra) veio a ser incorporada em 1930 no Fado da Noite (A vida é negra, tão negra), música de Jorge de Morais (Xabregas), primeiramente gravado por Machado Soares em 1956 (EP Alvorada, MEP 60111).
Desconhecemos se mais alguém gravou este espécime.

FADO VISÃO
Música: autor não identificado
Letra: dados desconhecidos
Edição musical: desconhecemos a sua existência

Informação complementar:
Apenas conhecemos a existência do respectivo disco, o disco Parlophone, B 33.302, que ainda se encontrava em catálogo e à venda em 1946.

UMA CANÇÃO
Música: autor não identificado
Letra: desconhecemos a letra e respectiva autoria
Edição musical: desconhecemos a sua existência

Informação complementar:
Apenas conhecemos a existência do respectivo disco, o disco Parlophone, B 33.302, que ainda se encontrava em catálogo e à venda em 1946.

MINHA MÃE
Incipit: Minha mãe é pobrezinha
Música: indicada como “popular”
Letra: 1.ª quadra popular; 2.ª quadra de autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920

I
Minha mãe é pobrezinha,
Não tem nada que me dar.
Dá-me beijos, coitadinha,
(Ai2) E depois põe-se a chorar!

II
Quem me dera minha mãe,
A santa que eu vi sofrer,
Dizem as santas no céu
(Ai2) Que morreu pra eu viver.


Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Gravado por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0303, master 98020). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
A 1.ª quadra ocorre também noutras melodias:
-Fado Triste (Minha mãe é pobrezinha), [na verdade Fado da Minha Mãe] gravado por António Menano, primeiro em Lisboa e depois em Berlim (discos Odeon, 136.822 e A 136.822 e LA 187.804), cuja música é de Alexandre Rezende;
-Fado Mondego (Minha mãe é pobrezinha), [na verdade Fado Espanhol] gravado pelo mezzo soprano D. Luísa Baharem, em finais de 1926 (disco Columbia, 1032-X, edição americana);
-D’Um Olhar (As meninas dos meus olhos), música de Alexandre de Rezende dedicada a António Menano, de que foi feita edição musical em 1915, mais conhecido por «As Meninas dos Meus Olhos», gravado por António Menano (discos Odeon, 136.821 e A 136.821). A referida quadra consta da edição musical impressa, mas não nas matrizes gravadas por António Menano.
Desconhecemos se mais alguém gravou este fado.

[FADO DE DESPEDIDA]
Título original: FADO DO MAR
Incipit: A despedida, no dia
Música: D. José Pais de Almeida e Silva (1899-1968)
Letra: autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920
I
A despedida, no dia
Em que se faz de verdade,
É choro duma alegria
Que se transforma em saudade.

II
Que tristeza, que tormento
Sinto no meu coração!
Mocidade és qual o vento
Fugindo sem ter razão.


Informação complementar:
Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Composição musical estrófica gravada por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.303, master 98021). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
A melodia é rigorosamente a mesma de FADO DO MAR (As ilusões que me perseguem), gravado em 1929 por Artur Almeida d’Eça, acompanhado por Albano de Noronha/Afonso de Sousa (gg) no disco de 78 rpm Polydor , P 42.127.

MELANCOLIA
Incipit: A saudade faz lembrar
Música: autor não identificado
Letra: 1.ª quadra de Domingos Garcia Pulido; 2.ª quadra de José Marques da Cruz
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920

I
A saudade faz lembrar
A melopeia da nora,
Se a uns parece cantar,
Parece a outros que chora.


II
Nunca chores junto à nora
Que a corrente faz girar,
Quem chora ao pé de quem chora
Fica-se sempre a chorar.


Informação complementar:
Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Composição musical estrófica gravada por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0308, master 98022).
Ambas as quadras se cantam também, mas por ordem inversa, com o chamado Fado da Nora (Nunca chores junto à nora), de Armando Goes, cuja música é diferente.
Desconhecemos se mais alguém teria gravado este fado.

CANÇÃO DAS RENDILHEIRAS DE VILA DO CONDE
Incipit: Rendilheiras que teceis
Música: Carlos Alberto Leal
Letra: Artur Cunha Araújo
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: 1928

Rendilheiras que teceis
As finas rendas à mão,
Eu dou-vos, se vós quereis,
Pra almofada o coração.


Refrão
Ó vem à janela
Como a noite é bela,
Vem ver o luar;
Linda rendilheira
Deixa a travesseira,
Vem-me ouvir cantar.


Quem me dera, rendilheira,
Ser essa tua almofada
E passar a vida inteira
Em teu regaço, deitada.


Refrão
Ó vem à janela…etc.

Informação complementar:
Canção musical com refrão gravada entre 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.308, de 78 rpm).
Esta canção foi popularíssima em todo o Portugal, tendo conhecido assinalada difusão nos anos dourados da Emissora Nacional. Também foi popular em Coimbra na década de 1930, cidade onde era cantada por estudantes e populares.
Na década de 1960 foi gravada pelo tenor radiofónico Américo Silva, acompanhado à guitarra por Armandino Maia e António Parreira e, à viola, por J. M. de Carvalho e José Vilela (EP “Américo Silva canta Fados de Coimbra”, Estúdio, EEP 50.228, com a errada indicação de ser música de Ângelo Vieira Araújo).
Também foi gravada por João Queiroz sob o título Canção das Rendilheiras (EP “The Old Coimbra Fado III”, RCA Victor, TP-313 (ca. 1967), cantor que após fugaz passagem pelo grupo dos irmãos Plácidos se radicou em Lisboa; LP “Fados de Coimbra por João Queiroz”, RCA Camden, CL-40220, editado em 1981 e LP “Estrelas de Portugal”, RCA Victor LPV-7649, editado na Venezuela).
Nestes três discos figuram como autores os nomes de Manuel Tino e Hugo Rocha, supondo-se atribuição de letra de Manuel Tino e de música de Hugo Rocha. Num outro disco de João Queiroz figuram os nomes de Manuel Pino e Ugo Rocha (sic): LP “João Queiroz – Samaritana”, Interfase, IF 144, editado em 1987.
As autorias fornecidas por João Queiroz não se nos asseveram fiáveis. Tanto poderão ter sido indicadas pelo cantor Loubet Bravo (que estaria familiarizado com o tema desde a sua juventude portuense), como por frequentadores das casas de fados de Lisboa onde o cantor se movimentava.
“Canção das Rendilheiras” é considerada uma espécie de hino de Vila do Conde. Foi adoptada como hino oficial do Rancho da Praça (http://www.rancho-da-praca.com/paginas/FotoRendilheira.html), agrupamento que efectuou sucessivas gravações do tema em 1960 (EP “É isto Vila do Conde”, Alvorada), 1964, 1966, 1976, 1977, 1992, em vinil, cassetes e cd (http://www.rancho-da-praca.com/paginas/musicas1_mp3.html).

Pesquisa e texto: José Anjos de Carvalho e António M. Nunes
Agradecimentos: Dr. João Caramalho Domingues e José Moças (Tradisom), Dra. Isabel Cambezes (Ordem dos Advogados), Ordem dos Médicos (Arquivo Central), Casa da Beira Alta no Porto, Rosa Soares (Ordem dos Médicos)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Carlos Leal - caricatura

Caricatura de Carlos Leal no Livro dos Quintanistas de Medicina do Porto 1932-1933.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

"Tempos da fadistação..."

[Carlos Leal, Porto Académico, n.º único de 1938, pág. 12.]


Porto Académico, que mundo de recordações invoca este nome, já velho, dos tempos da fadistação despreocupada e irrequieta. Quanta saudade e tristeza vão desenrolando diante dos meus olhos esses tempos em que pertenci, pode dizer-se, à última geração dos veteranos, dos velhos blagueurs, impenitentes perseguidores dos caloiros recém-chegados e revestidos ainda da velha casca provinciana e também dos grandes orientadores das maiores organizações artísticas, desportivas e jocosas que até hoje a Academia soube realizar.

Desde a coroação do Orfeão e Tuna Académica por terras de Madrid e Galiza em que se glorificaram as figuras do Dr. Clemente Ramos e Dr. Modesto Osório, às inúmeras excursões por terras portuguesas onde brilhavam para uns e irritavam a outros as piadas do Sobrinho das Barbas, do Mendes, do Zé Moreira, do João Ribeiro; desde as peças teatrais do Mendo e do Fariñas, à Aranha Verde e outras revistas do Poeta Rabeta, do Perry, do Zeferino, com música do Alberto David, do Lucena Sampaio, do Álvaro Rodrigues e outros, desde os actores consumados até aos célebres grupos de Girls que arrebatavam as plateias. Desde aquele clássico bailado das horas dançado pelo grupo dos barbudos, àquele colossal bailado do Bravo ali no S. João que deixou estupefactos todos aqueles que minutos antes o tinham visto entre-cenas. Desde as primeiras organizações do Carnaval que enchiam a cidade de gente vinda de toda a parte, até àquele célebre roubo da macaca ali nos Lóios que depois de doutorada honoris causa foi entregue com toda a solenidade na varanda do antigo Hotel Rainha...[1] tudo isso passa ainda com saudade diante dos meus olhos. E aquelas célebres excursões de cursos a terras da Galiza pletóricas de alegria moça e garotices... Nunca consegui saber quem foi o autor da piada que obrigou o Bravo a arrancar o forro do boné de polícia com que desempenhava brilhantemente aquele papel na comédia os Suicidas, uma das peças do reportório da nossa tournée por terras galegas.

Depois o pano desceu... e os antigos actores passaram a ser engenheiros, médicos, advogados jornalistas, etc.

Mas saudade bem grande, sinto eu ao recordar aquelas serenatas a horas mortas pelas ruas da cidade com o Aires, o Viamonte, o Milheiros, o Zé Taveira, o Rogério, o Amândio Marques, o Pereira Leite e o Guerra, vulgo tenor de cabeça.[2] Ao lado das notas sentimentais, quantas cenas picarescas duma comicidade natural e espontânea, passam ainda nas minhas retinas. No regresso das serenatas e depois de tremendas touradas aos gatos vadios, onde surgiam diestros valorosos, íamos acabar a noite ali no Transmontano, organizando sessões fadológicas debaixo da orientação do velho Mouzão já de cabeleira toda branca, do tenente Simão e outros carolas do fado e da guitarra...

Depois o fado morreu... morreu com as grafonolas e com o rádio. E foi esta grafonoloterapia e radioterapia que, ministrada em tão altas doses, provocou a dispepsia e o enjoo a toda a gente.
..........................................................

Nunca mais se ouviu uma serenata... e aos meus ouvidos, chega ainda o eco da minha própria voz nas noites luarentas de há dez anos, para arrelia dos mestres e encantamento dos sonhadores e... das sonhadoras, como o ultimo boémio duma geração que passou.

Maio de 38

CARLOS LEAL






[1] Cf. os textos "Bons tempos" e "O rapto da macaca".

[2] É possível que este "Guerra, vulgo tenor de cabeça" fosse o "Guerra da Cabeleira" referido num episódio, contado anonimamente, e sem qualquer referência à data em que se terá passado, no Porto Académico, n.º único de 1962, p. 45:

E ASSIM SE PERDEU O CRÉDITO...

O Morais, dono duma casa de «bons petiscos» na Rua do Almada - casa muito frequentada, durante a noite, pela Academia de outros tempos - tinha a fama e... o proveito de deitar água no vinho. Sendo amigo da rapaziada e tanto assim que até fiava a... longo prazo, o Morais, que admitia todas as brincadeiras, não suportava, por princípio algum, que o acusassem de mixordeiro. Pobre daquele que se atrevesse, de cara, a acusá-lo da mistura!... Nunca mais lhe fiava.

Era certo e sabido que a boémia académica de então, de regresso de qualquer serenata, abancava ali a altas horas da madrugada e, certa vez, o Morais mostrou desejos de ouvir o «fadinho» defronte da sua porta. Os rapazes resolveram satisfazer-lhe a vontade e, numa madrugada de Janeiro, com o luar a bater em chapadas, o Morais tinha à sua porta uma serenata com quatro guitarras, dois violões, três tenores e grande acompanhamento da Academia.

Tudo correu muito bem e, para fechar a serenata, ecoou pelo espaço a voz tenorina do «Guerra da Cabeleira», num fado muito em voga:
O vinho é sangue de Cristo
Que nossas mágoas suaviza
E é, talvez, por causa disto
Que o Morais o baptiza...
Caiu Tróia... E o Morais cortou o crédito à Academia...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Carlos Leal
«O Rouxinol do Ave»

[Amândio Marques, Porto Académico, n.º único de 1962, págs. 44 e 46]


Já lá vão umas dezenas de anos, e o tempo passa sem dele se dar conta!... Tempos melhores, mais tranquilos e despreocupados, quiçá, mais felizes! Todos nós usávamos capa e batina, e a boa gente tripeira gostava de a ver e acarinhava-a, passando a ser um elemento decorativo da Cidade, e um cartão de visita e de entrada onde quer que se apresentasse! A vida decorria tranquila, simples, leal, cheia de franqueza nas relações comuns. Tínhamos a Associação Académica - escola de convivência e de oradores - o Orfeão e a Tuna e, não podia faltar, a nossa Imprensa. A estima e a amizade eram construídas e alicerçadas na sinceridade, alheios de todo em todo, a qualquer concorrência descortês ou egoísta. Tínhamos atravessado a Grande Guerra - 1914-1918 - e esse movimento sacudiu-nos profundamente, e mais nos aproximou para melhor nos compreendermos. Era como se fôssemos uma grande família! O estudante procurava manter e reforçar um costume, quer pela sua vida académica própria, quer e principalmente na realização das suas festividades - bem notáveis, vemo-lo agora mais do que nunca! - às quais fazia associar o povo portuense, a Cidade, e até o Norte, e criar assim uma tradição estudantil. E conseguiu-o. Passou a ser «o menino querido da cidade», pela sua graça inofensiva, esfuziante com seus «chistes» graciosos que provocavam íntima satisfação e o riso; as suas «partidas» tinham espírito, eram engraçadas, não molestavam e muito menos ofendiam ninguém, nem prejudicavam. Brincava-se sem atrevimentos, sem audácias, sem a prática de actos censuráveis ou condenáveis.

Muitos nomes me ocorrem, neste momento, e gostaria de os inscrever aqui, mas é impossível, tantos são! Limito-me a alguns e neles recordo-os a todos. Havia poetas como Carlos Cochofel - famoso autor de «Lírios» -, e Figueira Lopes; escritores teatrais como Adalberto Mendo, Augusto Farinas, Perry Garcia, Zeferino Moura, Tito Lívio de Santos Mota, Sousa Santos, Luís de Pina; «actores e piadistas» como João Ribeiro, António Mendes, Joaquim Bravo, Petronilho, José Moreira, Elísio Sobrinho, etc., etc.

Não faltavam guitarristas e cantores magníficos de fados e canções, como Aires Pinto Ribeiro, guitarrista exímio, Ernesto Brandão, Cícero de Azevedo, Manuel Pereira Leite e, dos mais modestos, o autor desta recordação. Óptimos cantores de fados e canções, «autênticos rouxinóis» como José Taveira, Mário Delgado Viemonte, Cabral Borges, Carlos Alberto de Carvalho, «O Passarinho», e Carlos Alberto Leal!

Tempo de existência gloriosa do Orfeão e da Tuna - a melhor da Península que tanta admiração causava! -, cujos tunos na sua maioria tocavam por sinais especiais, a chamada «música de carpinteiro», imaginada e classificada pelo saudoso regente Modesto Osório, e também pelo sapiente e bondoso regente do Orfeão, o Padre Clemente Ramos. Cultivando a Arte e a Camaradagem, a Tuna e o Orfeão levavam o bom nome da Cidade e de Portugal, através do País e da Espanha, em passeios triunfais! A arte e a graça irmanavam-se, e as amizades tornavam-se cada vez mais consistentes. José Taveira e Carlos Leal, eram os solistas admiráveis - sem favor e sem amabilidade - pela sua voz melodiosa, forte, encantadora e sentimental, do Orfeão e da Tuna. E eram, também, os cantores dos lindíssimos fados de então, que causavam a admiração e o encantamento a quem tinha a felicidade de os ouvir!
«Óh capas negras que andais
Ao luar pela noite fora...»
Carlos Alberto Leal veio de Vila do Conde, terra da sua naturalidade. Seu pai, e sua família, que eu conheci, era um músico e tinha uma bela voz. Carlos Leal, seu filho, ultrapassou-o. Veio frequentar o Liceu Rodrigues de Freitas, onde eu andava, e logo nos fizemos amigos até... à morte!

Carlos Leal
(Porto Académico, n.º único de 1962, pág. 46)

Carlos Leal, como era mais conhecido, Luís Canto Moniz, Josué da Silva, o autor desta recordação, formavam um grupo, cuja amizade com estes últimos vinha já de criança e se foi cimentando pela vida fora.

Em pouco mais o grupo aumentou - ou melhor, ele já existia - com mais unidade, com Francisco Fernandes, José Fernandes, outro escritor, Alberto de Serpa, escritor e poeta, Pereira Leite, outro guitarrista, Carlos Alberto de Carvalho «O Passarinho», de linda voz, cantava os fados com sentimento, Alberto do Carmo Machado, então Sargento Cadete, nosso saudoso companheiro para toda a parte, o António Abrantes, o «Abrantes do Cavaquinho», o Jorge Alcino Morais, etc. Ensaiávamo-nos nas guitarradas e fados. Carlos Leal cantava os lindíssimos fados e canções, na sua voz melodiosa, clara, aguda de um bom tenor,
Vão se abalando tão tristes
Meus olhos, por vós meu bem!
Que nunca tão tristes vistes
Olhos assim por ninguém!
As serenatas faziam-se em qualquer parte da cidade, e fora dela, em Braga, Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Espinho, Viseu, Mangualde, etc., etc. E raro era conhecermos a «dona» para quem se cantava ou tocava!

Nenhuma autoridade nos interceptava. E as serenatas faziam-se às 2 e 3 horas da manhã, quando a cidade estava no primeiro sono! Mas toda a gente gostava, ao ouvir a voz de Carlos Leal, e ao ver o grupo de capas e batinas, que, silenciosamente, desprendiam os acordes sentimentais das suas guitarras, e a voz do Leal subia suavemente na atmosfera e se repercutia nos lados da rua, sem quebrar o silêncio do ambiente e interromper o sonho de quem estivesse a sonhar. E era um despertar de sonho. As janelas abriam-se, viam-se os roupões na semiobscuridade e silêncio que nos envolvia. Nas serenatas cantavam o Leal, e muita vez o José Taveira e Cabral Borges. Era eu, quem ia ao então Comissário da Polícia, o saudoso desembargador dr. Lopes Carneiro, pedir a devida autorização. «Dá-me licença sr. dr.». - Eu sempre de capa e batina - nunca conheci outro traje - solicitava-lhe a licença. Quando me via entrar, já sabia... conhecia-me já há muito, e era velho amigo de meu saudoso Pai.

«Que queres, ó Marques? já sei, tens serenata, onde é?»
Trim, trim trim, está? Faça favor de transmitir para a área de... que os estudantes com o Marques e o Leal vão fazer uma serenata, para que não sejam interrompidos!. «Pronto, vai-te embora».

E outras vezes dizia-me: - «Olha, ó Marques, eu vou dar-te uma licença para sempre». E a serenata ou serenatas faziam-se perante a presença da patrulha a cavalo da Guarda Nacional Republicana que à distância parava a ouvir, e tanta vez com os guardas de giro!

Em pouco mais, tínhamos uma assistência numerosa que nunca mais nos largava! E os nossos nomes andavam em todas as bocas, especialmente femininas, da cidade. Terminada a serenata, cada um ia para sua casa, depois de uma belíssima noite, bem passada, sem o menor atrito para quem quer que fosse, e todos gostavam deste romântico espectáculo nocturno! Belíssimos tempos! A voz e o sentimento que Carlos Leal imprimia aos seus fados, eram cada vez, e de ano para ano, melhor e mais expressivos, cantando com mais alma! Era o solista do Orfeão e da Tuna, alternando por vezes com Mário Delgado - um Artista! - e Modesto Osório, seu regente, compôs expressamente para o Leal «A Tua Serenata», que a Tuna tocava num ambiente de luz luarenta. E, Carlos Leal, cantava
«É tão tarde e eu ainda aqui»
cuja voz dominava o acompanhamento feito pela Tuna. Era um assombro! Repetida várias vezes, em qualquer palco onde fosse executada! no Porto, em Coimbra, no País, na Espanha! Carlos Leal era o ídolo da Academia do nosso tempo, uma maravilha ouvo-lo cantar. Era um dos maiores cantores de Portugal! Eu conhecia-os, e alguns acompanhei à guitarra. Por iniciativa dos estudantes que do Porto foram para a Universidade de Coimbra, como eu, foram o Orfeão e a Tuna Académica do Porto convidados a ir àquela cidade. Foi uma apoteose! Nada gastaram, foram aboletados nas «Repúblicas» e em casa de cada um. Os recitais constituiram um triunfo de artístico e de camaradagem. Carlos Leal e outros «artistas académicos» tiveram ali a sua consagração, em Coimbra, terra única de cantores e de Orfeão!! A «Canção das Rendilheiras» que Carlos Leal cantou acrescentou-lhe o triunfo! Esta lindíssima canção constituiu depois o «Hino» do seu Curso, cantado sempre nas suas reuniões.

Carlos Leal deu fama à Academia do nosso tempo, e mais prestigiou-a em tudo, no Orfeão, na Tuna, nos Fados e Guitarradas, sem pôr de parte a sua vida de estudante distinto da Faculdade de Medicina, em que se formou.).[1]

E cantava no seu último ano,
«Oh, capas negras que andais
«Ao luar pela noite fora,
«Adeus, adeus nunca mais...»
«Vos posso usar, vou-me embora!»
Acompanhado à guitarra por mim e por Francisco Fernandes - hoje distinto Médico Cirurgião em Moçambique - e viola Pais da Silva, Carlos Leal gravou diversos discos que, em breve, se esgotaram, como a famosa «Canção das Rendilheiras», e outros.[2] Nunca deixava de colaborar nas «Revistas», nos «Cortejos», nos espectáculos que a Academia organizava, em todos com papel de destaque. Era estimado e admirado por todos, pelo seu temperamento, bondade, simples e modesto, sempre bem disposto e amável, satisfazendo sempre os pedidos de serenatas, ou a sua colaboração em qualquer festa, mesmo particular. Mais tarde associa-se ao nosso grupo, outro bom cantor de fados, D. Manuel Távora, fidalgo e amigo fiel, que nos acompanhava e cantava os seus fados que muito apreciávamos.

Canto Moniz, apesar da sua grande aspiração de ser marinheiro, depois de cursar na Faculdade de Ciências os preparatórios para a Escola Naval, deu novo rumo ao seu futuro e, então, matriculou-se em Medicina. Estudante distintíssimo, no termo da sua brilhante formatura, a Faculdade reconheceu-lhe, aliás com inteira justiça, os seus méritos e não hesita em nomeá-lo assistente. No entanto, Carlos Leal forma-se também em Medicina, e ambos vêm para a vida prática, a profissão liberal, a luta... Ambos ilustraram a Universidade, a Faculdade de Medicina, e ambos passaram a caminhar juntos na luta pela vida. O Leal era o braço direito de Canto Moniz.[3] A mesma estima e amizade fraternal que nos unia, manteve-se inalterável, e manteve-se até ao desaparecimento, que tanta saudade deixou, de Carlos Leal!! O trinar do «Rouxinol do Ave» deixou de se ouvir em 9 de Abril de 1960! Na pujança da vida! Este belo rapaz, leal no nome e nos actos da sua vida, íntegro carácter, profissional distintíssimo, doente, desgostoso, sofrendo a perda da sua encantadora mulher, falecida oito meses e poucos dias antes, que ele tanto adorava, morre apaixonadamente como um romântico, um sentimental, pelo seu temperamento e formação psicológica, deixando-nos um vácuo e profunda saudade!

Canto Moniz, brilhante cirurgião portuense, perdeu um prestimoso colaborador, e ambos nós o querido amigo de sempre, de amizade fraternal, como se três irmãos fôssemos!

A sua melodiosa voz que tanto ecoou pela cidade, deixou de se ouvir, mas no silêncio da noite parece ouvir-se, ainda:
«Adeus, adeus nunca mais
«Vos posso usar, vou-me embora!»
E enquanto me passa pelo pensamento a imagem daquelas capas
«Óh capas negras que andais»
«Ao luar pela noite fora»
como que a quebrar a monotonia do silêncio, é nesse silêncio luarento, de tanta e tanta saudade e recordação, que aqui deixo a minha modesta homenagem e de saudade de Carlos Alberto Leal, um dos estudantes que mais prestigiou a academia do nosso tempo!


Janeiro de 1962
AMÂNDIO MARQUES






[1] "Estudante distinto" é um pouco exagerado: tendo-se matriculado no primeiro ano em 1924-1925 (Anuário da Fac. Med. Porto, vol. XIV), Carlos Leal deveria ter terminado o curso em 1929; no entanto a sua caricatura aparece no Livro de Quintanistas de Medicina do Porto 1932-1933.

[2] Pelo menos cinco discos para a Parlophon:
B33300 - Fado Alemtejano ("Fechei a porta à desgraça") / Fado da Descrença ("Eu não creio por não crer");
B33301 - Um Fado ("Passam-se noites inteiras") / Fado da Nostalgia ("A vida é negra, tão negra");
B33302 - Fado Visão (?) / Uma Canção (?);
B33303 - Minha Mãe (Fado) ("Minha Mãe é pobrezinha") / Fado de despedida ("Uma despedida no dia");
B33308 - Melancolia ("A saudade faz lembrar") / Canção das rendilheiras de Vila do Conde ("Rendilheiras que teceis").
Acrescente-se que Amândio Marques também gravou pelo menos dois discos de guitarradas, igualmente para a Parlophon, e igualmente com o acompanhamento de Francisco Fernandes e Pais da Silva:
B33016 - Variações em ré menor / Fado em lá maior;
B33017 - Fado em dó sustenido menor / Capricho.

[3] Luís Canto Moniz era cirurgião, e Carlos Leal era (creio) anestesista.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Discos de vinil de Fado de Coimbra gravados no contexto académico portuense

Apresento abaixo uma lista dos discos de vinil de Fado de Coimbra que foram gravados por estudantes ou antigos estudantes da Universidade do Porto nessa condição[1].
O artigo de Armando Luís Carvalho Homem, "O «Fado de Coimbra» na Academia do Porto" contém informações sobre os intervenientes nestas gravações.
Tanto quanto sei, esta lista é exaustiva. Mas agradeço quaisquer acrescentos ou outras correcções.

Coloquei a negrito os temas "originais" (isto é, aqueles que, tanto quanto sei, tiveram nesse disco a sua primeira gravação).

Para as correcções de autorias socorri-me das informações publicadas por António Nunes e Cor. Anjos de Carvalho nos blogues Guitarra de Coimbra (Parte I, Parte II, Parte III e Parte IV) de Octávio Sérgio.

Dr. José Santana - Coimbra (c. 1962)
Alvorada AEP 60423

Dr. José Vitorino Santana (c)
Lauro de Oliveira (g)
Dr. Fernando Barbos (g)
Ernesto Almeida (v)

  • BALADA DE ENCANTAMENTO (Balada do Encantamento, "Dentro de ti, ó Leiria")
    [M: D. José Pais de Almeida e Silva]
  • QUINTO ANO MÉDICO (Fado de Despedida do V Ano Médico de Coimbra de 1937-38, "Foram-se as fitas doiradas")
    [M/L: João Gonçalves Jardim]
  • PASSARINHO DA RIBEIRA (Fado dos Passarinhos, "Passarinho da Ribeira")
    [M: António Menano / L: D.R.]
  • FADO DO MANASSÉS ("Trago comigo um pecado")
    [M: Manassés de Lacerda / L: ?]
(V. tb. as entradas Fotobiografia de José Vitorino Santana e O EP Coimbra de José Vitorino Santana neste blogue.)


Conjunto Universitário de Guitarras (1965)
Orfeu ATEP 6187

Nuno Morgado (c)
José Carlos Agrelos (g)
Manuel Botelho Chaves (g)
Beirão Reis (v)

  • MAR ALTO ("Fosse o meu destino o teu")
    D.R. [na verdade, M: Mário Faria da Fonseca / L: Edmundo Bettencourt]
  • FADO SAUDADES ("Ter saudades é viver")
    M: Paulo de Sá / L: Alfredo Fernandes Martins
  • BALADA AO LUAR ("Ó rouxinol encantado")
    M/L: Manuel Gil Mata
  • FOLHA CAÍDA ("é como a folha caída")
    D.R. [?]


Conjunto Universitário de Guitarras - Fados (1966?)
Orfeu ATEP 6218

Nuno Morgado (c)
José Carlos Agrelos (g)
Manuel Botelho Chaves (g)
Beirão Reis (v)

  • SUGESTÃO ("Não digas não, dize sim")
    Dr. António Menano [na verdade, M: Alexandre de Rezende / L: Edmundo Bettencourt?]
  • O TEU OLHAR ("É tão lindo o teu olhar")
    D.R. [na verdade, M: Flávio Rodrigues? / L: 1ª quadra - popular, 2ª quadra - José Simões Dias]
  • CANÇÃO DA BEIRA ("Dava a vida de bom grado")
    Dr. António Menano [na verdade, L/M: populares]
  • CATIVEIRO ("O sol-pôr é a hora da saudade")
    M/L: Eng. Manuel Gil Mata


Orfeão Universitário do Porto - Sarau Comemorativo do 60º Aniversário 71/2 (1973)

Ainda não consegui ver/ouvir este LP; a informação abaixo é retirada da página do OUP e de um artigo de A. L. Carvalho Homem no blogue Guitarra de Coimbra ("Dois guitarristas portuenses que nos deixam", 26/3/2005).
Trata-se de um LP com uma selecção de momentos do sarau indicado no título. Três das 11 faixas são de fados e guitarradas.
  • VARIAÇÕES EM LÁ MENOR (n.º 1)
    M: Artur Paredes
    António Rosa de Araújo (g), Serafim Guimarães (g), Fernando Reis Lima (v), José Alão (v)
  • ÁGUA DA FONTE
    Óscar França (c), António Rosa de Araújo (g), Serafim Guimarães (g), Fernando Reis Lima (v), José Alão (v)
  • FADO TRISTE


Dr. J. Tavares Fortuna - Fados de Coimbra (fui moço, fui rapaz) (1981)
Roda SSRL 9006
(Também editado em cassete: Roda CSR-193)

Dr. J. Tavares Fortuna (c)
Dr. Melo e Castro (g)
Dr. João Lamego (g)
Dr. Agostinho de Matos (v)
Dr. Rui de Brito (v)

  • FUI MOÇO, FUI RAPAZ ("Fui moço, fui rapaz")
    D.R.
  • FADO ALENTEJANO ("Fechei a porta à desgraça")
    Dr. Armando Gois [na verdade, M: Armando Goes / L: 1ª quadra - popular, 2ª quadra - João da Silva Tavares]
  • AVÉ MARIA (Rezas à noite, "No nosso Portugal é uso antigo")
    Dr. José A. Pais e Silva / Dr. Marques da Cruz [na verdade, M: José Augusto Coutinho de Oliveira / L: José Marques da Cruz]
  • VALSA EM RÉ
    M: Dr. João Lamego
  • CANÇÃO DAS FOGUEIRAS ("Raparigas de Coimbra")
    Popular
  • CANÇÃO DA BEIRA ("Dava a vida de bom grado")
    Dr. António Menano [na verdade, L/M: populares]
  • FADO DA SAUDADE ("Saudade é como gostar")
    M: Dr. João Lamego / L: Dr. Agostinho de Matos
  • TROVA DO VENTO QUE PASSA ("Pergunto ao vento que passa")
    M: Dr. António Portugal / L: Manuel Alegre
  • VARIAÇÃO N.º 1 EM LÁ MENOR
    M: João Bagão
  • CAPA NEGRA, ROSA NEGRA ("Capa negra, rosa negra")
    M: Dr. António Portugal e Adriano Correia de Oliveira / L: Manuel Alegre
  • MÁGOAS DE AMOR ("Cautela, não te aborreça")
    Dr. Raposo Marques
  • VARIAÇÃO EM LÁ MENOR
    M: Dr. Jorge Tuna, arr.: Dr.Melo e Castro


Dr. J. Tavares Fortuna, Dr. António Rodrigues - Fados de Coimbra 2 (1982)
Roda SSRL 9007
(Também editado em cassete: Roda CSR-232)

Dr. J. Tavares Fortuna (c) *
Dr. António Rodrigues (c) **
Dr. João Lamego (g)
Joaquim Rodrigues (g)
Dr. Agostinho de Matos (v)
Dr. Rui de Brito (v)

  • REGRESSO AO PASSADO ("Vou regressar ao passado") *
    Dr. João Lamego / Dr. Tavares Fortuna
  • MARIA (Fado do Alentejo, "Maria, teu lindo nome") **
    D.R. [na verdade, M: António Menano / L: 1.ª quadra - António de Sousa, 2.ª quadra - António Menano]
  • ROSAS BRANCAS ("Quando eu morrer, rosas brancas") *
    Dr. A. de Sousa [na verdade, M: ? / L: 1.ª quadra - Afonso de Sousa, 2.ª quadra - ?]
  • VARIAÇÕES EM RÉ MENOR
    M: Dr. Almeida Santos
  • FADO CORRIDO DE COIMBRA ("Coimbra, rio Mondego") **
    Popular [M: popular / L: 1.ª e 2.ª quadras - populares, 3.ª quadra - Armando Cortes Rodrigues]
  • FADO DO ESTUDANTE ("Fecha os olhos de mansinho") *
    Dr. Fernando Machado Soares [na verdade, M: Fernando Machado Soares / L: ?]
  • BALADA DO ENTARDECER ("Ó Mondego, ó Mondego") **
    Dr. Fernando Machado Soares
  • FADO PARA UM AMOR AUSENTE ("Meu amor disse que eu tinha") *
    M: Dr. António Portugal / L: Manuel Alegre
  • SÉ VELHA ("Adeus, Sé Velha saudosa") **
    M/L: Dr. Carlos de Figueiredo
  • BALADA DE FLORÊNCIO ("Lá longe, ao cair da tarde") *
    M/L: Florêncio de Carvalho
  • BALADA DA DESPEDIDA DO 6.º ANO MÉDICO, 1958 ("Coimbra tem mais encanto") **
    M/L: Dr. Fernando Machado Soares


Grupo Académico Serenata - "Fados de Coimbra" (1986)
Orfeu LPP 44

Dr. Pais da Rocha (c) *
Victor Silva (c) **
Dr. Luís Paupério (c) ***
Dr. Carlos Teixeira (c, v) ****
Eng. Cunha Pereira (g)
Jorge Carvalho (g)
Arnaldo Brito (v)

  • MEIA NOITE AO LUAR ("À meia-noite ao luar") coro
    Popular
  • UM FADO DE COIMBRA ("Nossa Senhora da Graça") *
    Paulo de Sá [na verdade, M: Paulo de Sá, L: popular]
  • VARIAÇÃO EM MI MENOR
    M: Jorge Tuna
  • ESTRELINHA DO NORTE ("Ó estrelinha do Norte") **
    João Jardim [na verdade: M: João Gonçalves Jardim / L: 1.ª quadra - popular, 2.ª quadra - Ângelo Vieira Araújo], arr.: "Tio Lauro" (Lauro de Oliveira)
  • FADO DO ESTUDANTE ("Fecha os olhos de mansinho") ***
    Fernando Machado Soares [na verdade, M: Fernando Machado Soares / L: ?]
  • BALADA DA TRISTEZA ("Tudo que é triste no mundo") *
    M: Raul Barros Leite / L: Popular
  • BEIJO ("À minha amada na praia") **
    Dr. António Menano [na verdade, M: Ruy Coelho / L: Afonso Lopes Vieira]
  • FASES DA LUA ("O amor é como a Lua") ****
    Dr. António Menano [na verdade, autor(es) desconhecido(s)]
  • FADO ALENTEJANO ("Fechei a porta à desgraça") **
    Dr. Armando Goes [na verdade, M: Armando Goes / L: 1ª quadra - popular, 2ª quadra - João da Silva Tavares]
  • VARIAÇÃO EM RÉ MENOR
    M: Armando Carvalho Homem
  • MARIA ("Maria, teu meigo olhar") *
    Dr. Gomes da Silva
  • BALADA DE COIMBRA
    M: Popular [na verdade, José Eliseu], arr.: Artur Paredes






[1] Explico-me: há diversos discos gravados por estudantes ou antigos estudantes de Coimbra que, por acaso, também estudaram no Porto (alguns tendo até tido actividade como intérpretes de Fado de Coimbra no Porto), mas discos gravados num contexto coimbrão - o exemplo máximo é o da discografia de António Pinho Brojo, que concluiu a licenciatura em Farmácia na Faculdade de Farmácia do Porto (quando a Universidade de Coimbra tinha apenas uma Escola Superior de Farmácia) e que colaborou nessa altura com o Orfeão Universitário do Porto, mas que gravou sempre acompanhado por colegas de Coimbra.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O EP Coimbra de José Vitorino Santana

O texto de António Nunes publicado aqui há uns dias, sobre a Fotobiografia de José Vitorino Santana, mencionava o EP que este gravou pelo início dos anos 60.
Apresento abaixo a capa e contracapa deste disco.




A título ilustrativo, deixo aqui também a segunda faixa, Quinto Ano Médico - ou seja, Fado de Despedida do V Ano Médico [de Coimbra] de 1937-38.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Fotobiografia de José Vitorino Santana

[O texto abaixo, de António Manuel Nunes, foi publicado originalmente, acompanhado desta foto, no blogue Guitarra de Coimbra IV - um excelente blogue, de visita obrigatória, da responsabilidade de Octávio Sérgio.]



Foi lançada em 2010 a primeira fotobiografia do médico e antigo estudante da Universidade do Porto José Vitorino Pinto Santana. O trabalho é da autoria de Maria Olinda Rodrigues Santana, professora de literatura na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro: José Vitorino Pinto Santana. Fotobiografia de um médico na segunda metade do século XX. Porto: Sítio do Livro, 2010.

José Santana nasceu em Penafiel em 1929. Cedo radicado com a família na cidade do Porto, ali cursou a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (1951-1957), tendo pertencido ao Orfeão Universitário onde foi solista do naipe dos tenores. Ficou conhecido como intérprete de reportório da Canção de Coimbra. Nessa qualidade, gravou o EP COIMBRA. DR. JOSÉ SANTANA, Alvorada, AEP 60423, ano de 1962 (?), acompanhado por Lauro de Oliveira, Fernando Barbosa e Ernesto Almeida. No referido suporte fononográfico constam os nomes do cantor e dos instrumentistas, estando omissos os dados relativos a autorias de músicas e de letras.
Os temas que constam do referido disco de 45 rpm são os seguintes:

-BALADA DE ENCANTAMENTO (Dentro de ti ó Leiria), Música de D. José Pais de Almeida e Silva [na verdade Balada do Encantamento, 1929];

-QUINTO ANO MÉDICO (Foram-se as fitas queimadas), Música de João Gonçalves Jardim [na verdade Fado de Despedida do V Ano Médico de 1937-38. O cantor inverte a ordem das quadras e adultera o 3.º verso da 1.ª quadra e os 1.º, 2.º e 4.º da 2.ª quadra];

-PASSARINHO DA RIBEIRA (Passarinho da Ribeira), música de António Paulo Menano [na verdade, Fado dos Passarinhos, de 1918. O cantor adultera o 1.º verso da 2.ª quadra];

-FADO MANASSÉS (Trago comigo um pecado), música de Manassés de Lacerda [na verdade, Fado Maria, de ca. 1902. O cantor segue a 1.ª quadra da lição António Menano, e como 2.ª vai colher "Fecha os olhos de mansinho" à lição de Lucas Junot].

A prestação vocal do cantor, as propostas de acompanhamento, a selecção reportorial e os tipos de cordofones utilizados merecem seguramente uma análise mais detalhada.

José Santana praticou Medicina na cidade do Porto, como técnico do FCP e no Hospital de São João. Entre 1967-1969 cumpriu serviço militar em Moçambique. É possível que tenha sido José Santana a trazer de Moçambique para o Porto uma composição conhecida por FUI MOÇO, FUI RAPAZ, que veio a ser gravada na década de 1980.

FONTES
http://cicloculturalutad.blogspot.com/2010/07/jose-vitorino-pinto-santana.html;
http://www.sitiodolivro.pt/fotos/livros/excerto-jose-vitorino-pinto-santana_1279640261.pdf

António Manuel Nunes

domingo, 8 de maio de 2011

Vinhetas da Queima das Fitas

[Esta entrada está desactualizada. V. Selos da Queima das Fitas]

Antes da interrupção dos anos 70, em vez de autocolantes havia vinhetas, ou selos, da Queima das Fitas.
Os desenhos destas vinhetas, ao contrário do que aconteceria mais tarde com os autocolantes, era diferente dos dos cartazes. Segundo me explicou em tempos Flávio Serzedello de Oliveira (1920?-2009, estudante da UP 1948-1974?), havia três prémios no concurso para cartaz da Queima das Fitas do Porto: o desenho classificado em primeiro lugar era adoptado para cartaz grande, o segundo para cartaz pequeno, e o terceiro para selo. Podem ver-se alguns cartazes grandes neste blogue em "Cartazes da Queima dos anos 60". Não tenho nenhuma imagem dum cartaz pequeno, embora tenha memória de numa exposição em 1992 ter visto um, da Queima de 1969, cujo desenho era o que foi utilizado para o programa desse ano (e que pode ser visto em "Alguns programas da Queima das Fitas, por volta dos anos 60"); os desenhos utilizados nos programas de 1963, 1965 e 1966, não sendo os dos cartazes grandes nem os das vinhetas, provavelmente seriam também os dos cartazes pequenos.
Apresento abaixo imagens de vinhetas da Queima das Fitas. A de 1958 foi retirada do blogue Memoria recente e antiga. As de 1955, 1956, 1957 e 1963 foram retiradas duma secção do Álbum de Memórias do Gabinete do Antigo Estudante da UP. As outras são digitalizações de originais da minha colecção pessoal - aproveito para agradecer à dra. Assunção Lima ter-me cedido vários destes originais.
Gostaria de colocar aqui mais vinhetas da Queima das Fitas. Se algum leitor do blogue tiver alguma (em bom estado) e estiver disposto a colaborar, fico agradecido e outros leitores também deverão ficar.











Autocolantes da Queima das Fitas

Apresento abaixo autocolantes da Queima das Fitas do período após a interrupção dos anos 70. O primeiro, o único sem indicação do ano, é de 1979.
Como já expliquei, o desenho destes autocolantes era o mesmo do cartaz.
Faltam aqui os autocolantes de 89, 90, 91 (primeira e segunda versão) e 92. Em 94 e em 96 não foram feitos autocolantes (oficialmente); e a partir de 98 já nem cartaz houve.
Se algum leitor do blogue tiver algum dos autocolantes que faltam aqui (em bom estado) e estiver disposto a colaborar, fico agradecido e outros leitores também deverão ficar.