quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Carlos Leal
«O Rouxinol do Ave»

[Amândio Marques, Porto Académico, n.º único de 1962, págs. 44 e 46]


Já lá vão umas dezenas de anos, e o tempo passa sem dele se dar conta!... Tempos melhores, mais tranquilos e despreocupados, quiçá, mais felizes! Todos nós usávamos capa e batina, e a boa gente tripeira gostava de a ver e acarinhava-a, passando a ser um elemento decorativo da Cidade, e um cartão de visita e de entrada onde quer que se apresentasse! A vida decorria tranquila, simples, leal, cheia de franqueza nas relações comuns. Tínhamos a Associação Académica - escola de convivência e de oradores - o Orfeão e a Tuna e, não podia faltar, a nossa Imprensa. A estima e a amizade eram construídas e alicerçadas na sinceridade, alheios de todo em todo, a qualquer concorrência descortês ou egoísta. Tínhamos atravessado a Grande Guerra - 1914-1918 - e esse movimento sacudiu-nos profundamente, e mais nos aproximou para melhor nos compreendermos. Era como se fôssemos uma grande família! O estudante procurava manter e reforçar um costume, quer pela sua vida académica própria, quer e principalmente na realização das suas festividades - bem notáveis, vemo-lo agora mais do que nunca! - às quais fazia associar o povo portuense, a Cidade, e até o Norte, e criar assim uma tradição estudantil. E conseguiu-o. Passou a ser «o menino querido da cidade», pela sua graça inofensiva, esfuziante com seus «chistes» graciosos que provocavam íntima satisfação e o riso; as suas «partidas» tinham espírito, eram engraçadas, não molestavam e muito menos ofendiam ninguém, nem prejudicavam. Brincava-se sem atrevimentos, sem audácias, sem a prática de actos censuráveis ou condenáveis.

Muitos nomes me ocorrem, neste momento, e gostaria de os inscrever aqui, mas é impossível, tantos são! Limito-me a alguns e neles recordo-os a todos. Havia poetas como Carlos Cochofel - famoso autor de «Lírios» -, e Figueira Lopes; escritores teatrais como Adalberto Mendo, Augusto Farinas, Perry Garcia, Zeferino Moura, Tito Lívio de Santos Mota, Sousa Santos, Luís de Pina; «actores e piadistas» como João Ribeiro, António Mendes, Joaquim Bravo, Petronilho, José Moreira, Elísio Sobrinho, etc., etc.

Não faltavam guitarristas e cantores magníficos de fados e canções, como Aires Pinto Ribeiro, guitarrista exímio, Ernesto Brandão, Cícero de Azevedo, Manuel Pereira Leite e, dos mais modestos, o autor desta recordação. Óptimos cantores de fados e canções, «autênticos rouxinóis» como José Taveira, Mário Delgado Viemonte, Cabral Borges, Carlos Alberto de Carvalho, «O Passarinho», e Carlos Alberto Leal!

Tempo de existência gloriosa do Orfeão e da Tuna - a melhor da Península que tanta admiração causava! -, cujos tunos na sua maioria tocavam por sinais especiais, a chamada «música de carpinteiro», imaginada e classificada pelo saudoso regente Modesto Osório, e também pelo sapiente e bondoso regente do Orfeão, o Padre Clemente Ramos. Cultivando a Arte e a Camaradagem, a Tuna e o Orfeão levavam o bom nome da Cidade e de Portugal, através do País e da Espanha, em passeios triunfais! A arte e a graça irmanavam-se, e as amizades tornavam-se cada vez mais consistentes. José Taveira e Carlos Leal, eram os solistas admiráveis - sem favor e sem amabilidade - pela sua voz melodiosa, forte, encantadora e sentimental, do Orfeão e da Tuna. E eram, também, os cantores dos lindíssimos fados de então, que causavam a admiração e o encantamento a quem tinha a felicidade de os ouvir!
«Óh capas negras que andais
Ao luar pela noite fora...»
Carlos Alberto Leal veio de Vila do Conde, terra da sua naturalidade. Seu pai, e sua família, que eu conheci, era um músico e tinha uma bela voz. Carlos Leal, seu filho, ultrapassou-o. Veio frequentar o Liceu Rodrigues de Freitas, onde eu andava, e logo nos fizemos amigos até... à morte!

Carlos Leal
(Porto Académico, n.º único de 1962, pág. 46)

Carlos Leal, como era mais conhecido, Luís Canto Moniz, Josué da Silva, o autor desta recordação, formavam um grupo, cuja amizade com estes últimos vinha já de criança e se foi cimentando pela vida fora.

Em pouco mais o grupo aumentou - ou melhor, ele já existia - com mais unidade, com Francisco Fernandes, José Fernandes, outro escritor, Alberto de Serpa, escritor e poeta, Pereira Leite, outro guitarrista, Carlos Alberto de Carvalho «O Passarinho», de linda voz, cantava os fados com sentimento, Alberto do Carmo Machado, então Sargento Cadete, nosso saudoso companheiro para toda a parte, o António Abrantes, o «Abrantes do Cavaquinho», o Jorge Alcino Morais, etc. Ensaiávamo-nos nas guitarradas e fados. Carlos Leal cantava os lindíssimos fados e canções, na sua voz melodiosa, clara, aguda de um bom tenor,
Vão se abalando tão tristes
Meus olhos, por vós meu bem!
Que nunca tão tristes vistes
Olhos assim por ninguém!
As serenatas faziam-se em qualquer parte da cidade, e fora dela, em Braga, Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Espinho, Viseu, Mangualde, etc., etc. E raro era conhecermos a «dona» para quem se cantava ou tocava!

Nenhuma autoridade nos interceptava. E as serenatas faziam-se às 2 e 3 horas da manhã, quando a cidade estava no primeiro sono! Mas toda a gente gostava, ao ouvir a voz de Carlos Leal, e ao ver o grupo de capas e batinas, que, silenciosamente, desprendiam os acordes sentimentais das suas guitarras, e a voz do Leal subia suavemente na atmosfera e se repercutia nos lados da rua, sem quebrar o silêncio do ambiente e interromper o sonho de quem estivesse a sonhar. E era um despertar de sonho. As janelas abriam-se, viam-se os roupões na semiobscuridade e silêncio que nos envolvia. Nas serenatas cantavam o Leal, e muita vez o José Taveira e Cabral Borges. Era eu, quem ia ao então Comissário da Polícia, o saudoso desembargador dr. Lopes Carneiro, pedir a devida autorização. «Dá-me licença sr. dr.». - Eu sempre de capa e batina - nunca conheci outro traje - solicitava-lhe a licença. Quando me via entrar, já sabia... conhecia-me já há muito, e era velho amigo de meu saudoso Pai.

«Que queres, ó Marques? já sei, tens serenata, onde é?»
Trim, trim trim, está? Faça favor de transmitir para a área de... que os estudantes com o Marques e o Leal vão fazer uma serenata, para que não sejam interrompidos!. «Pronto, vai-te embora».

E outras vezes dizia-me: - «Olha, ó Marques, eu vou dar-te uma licença para sempre». E a serenata ou serenatas faziam-se perante a presença da patrulha a cavalo da Guarda Nacional Republicana que à distância parava a ouvir, e tanta vez com os guardas de giro!

Em pouco mais, tínhamos uma assistência numerosa que nunca mais nos largava! E os nossos nomes andavam em todas as bocas, especialmente femininas, da cidade. Terminada a serenata, cada um ia para sua casa, depois de uma belíssima noite, bem passada, sem o menor atrito para quem quer que fosse, e todos gostavam deste romântico espectáculo nocturno! Belíssimos tempos! A voz e o sentimento que Carlos Leal imprimia aos seus fados, eram cada vez, e de ano para ano, melhor e mais expressivos, cantando com mais alma! Era o solista do Orfeão e da Tuna, alternando por vezes com Mário Delgado - um Artista! - e Modesto Osório, seu regente, compôs expressamente para o Leal «A Tua Serenata», que a Tuna tocava num ambiente de luz luarenta. E, Carlos Leal, cantava
«É tão tarde e eu ainda aqui»
cuja voz dominava o acompanhamento feito pela Tuna. Era um assombro! Repetida várias vezes, em qualquer palco onde fosse executada! no Porto, em Coimbra, no País, na Espanha! Carlos Leal era o ídolo da Academia do nosso tempo, uma maravilha ouvo-lo cantar. Era um dos maiores cantores de Portugal! Eu conhecia-os, e alguns acompanhei à guitarra. Por iniciativa dos estudantes que do Porto foram para a Universidade de Coimbra, como eu, foram o Orfeão e a Tuna Académica do Porto convidados a ir àquela cidade. Foi uma apoteose! Nada gastaram, foram aboletados nas «Repúblicas» e em casa de cada um. Os recitais constituiram um triunfo de artístico e de camaradagem. Carlos Leal e outros «artistas académicos» tiveram ali a sua consagração, em Coimbra, terra única de cantores e de Orfeão!! A «Canção das Rendilheiras» que Carlos Leal cantou acrescentou-lhe o triunfo! Esta lindíssima canção constituiu depois o «Hino» do seu Curso, cantado sempre nas suas reuniões.

Carlos Leal deu fama à Academia do nosso tempo, e mais prestigiou-a em tudo, no Orfeão, na Tuna, nos Fados e Guitarradas, sem pôr de parte a sua vida de estudante distinto da Faculdade de Medicina, em que se formou.).[1]

E cantava no seu último ano,
«Oh, capas negras que andais
«Ao luar pela noite fora,
«Adeus, adeus nunca mais...»
«Vos posso usar, vou-me embora!»
Acompanhado à guitarra por mim e por Francisco Fernandes - hoje distinto Médico Cirurgião em Moçambique - e viola Pais da Silva, Carlos Leal gravou diversos discos que, em breve, se esgotaram, como a famosa «Canção das Rendilheiras», e outros.[2] Nunca deixava de colaborar nas «Revistas», nos «Cortejos», nos espectáculos que a Academia organizava, em todos com papel de destaque. Era estimado e admirado por todos, pelo seu temperamento, bondade, simples e modesto, sempre bem disposto e amável, satisfazendo sempre os pedidos de serenatas, ou a sua colaboração em qualquer festa, mesmo particular. Mais tarde associa-se ao nosso grupo, outro bom cantor de fados, D. Manuel Távora, fidalgo e amigo fiel, que nos acompanhava e cantava os seus fados que muito apreciávamos.

Canto Moniz, apesar da sua grande aspiração de ser marinheiro, depois de cursar na Faculdade de Ciências os preparatórios para a Escola Naval, deu novo rumo ao seu futuro e, então, matriculou-se em Medicina. Estudante distintíssimo, no termo da sua brilhante formatura, a Faculdade reconheceu-lhe, aliás com inteira justiça, os seus méritos e não hesita em nomeá-lo assistente. No entanto, Carlos Leal forma-se também em Medicina, e ambos vêm para a vida prática, a profissão liberal, a luta... Ambos ilustraram a Universidade, a Faculdade de Medicina, e ambos passaram a caminhar juntos na luta pela vida. O Leal era o braço direito de Canto Moniz.[3] A mesma estima e amizade fraternal que nos unia, manteve-se inalterável, e manteve-se até ao desaparecimento, que tanta saudade deixou, de Carlos Leal!! O trinar do «Rouxinol do Ave» deixou de se ouvir em 9 de Abril de 1960! Na pujança da vida! Este belo rapaz, leal no nome e nos actos da sua vida, íntegro carácter, profissional distintíssimo, doente, desgostoso, sofrendo a perda da sua encantadora mulher, falecida oito meses e poucos dias antes, que ele tanto adorava, morre apaixonadamente como um romântico, um sentimental, pelo seu temperamento e formação psicológica, deixando-nos um vácuo e profunda saudade!

Canto Moniz, brilhante cirurgião portuense, perdeu um prestimoso colaborador, e ambos nós o querido amigo de sempre, de amizade fraternal, como se três irmãos fôssemos!

A sua melodiosa voz que tanto ecoou pela cidade, deixou de se ouvir, mas no silêncio da noite parece ouvir-se, ainda:
«Adeus, adeus nunca mais
«Vos posso usar, vou-me embora!»
E enquanto me passa pelo pensamento a imagem daquelas capas
«Óh capas negras que andais»
«Ao luar pela noite fora»
como que a quebrar a monotonia do silêncio, é nesse silêncio luarento, de tanta e tanta saudade e recordação, que aqui deixo a minha modesta homenagem e de saudade de Carlos Alberto Leal, um dos estudantes que mais prestigiou a academia do nosso tempo!


Janeiro de 1962
AMÂNDIO MARQUES






[1] "Estudante distinto" é um pouco exagerado: tendo-se matriculado no primeiro ano em 1924-1925 (Anuário da Fac. Med. Porto, vol. XIV), Carlos Leal deveria ter terminado o curso em 1929; no entanto a sua caricatura aparece no Livro de Quintanistas de Medicina do Porto 1932-1933.

[2] Pelo menos cinco discos para a Parlophon:
B33300 - Fado Alemtejano ("Fechei a porta à desgraça") / Fado da Descrença ("Eu não creio por não crer");
B33301 - Um Fado ("Passam-se noites inteiras") / Fado da Nostalgia ("A vida é negra, tão negra");
B33302 - Fado Visão (?) / Uma Canção (?);
B33303 - Minha Mãe (Fado) ("Minha Mãe é pobrezinha") / Fado de despedida ("Uma despedida no dia");
B33308 - Melancolia ("A saudade faz lembrar") / Canção das rendilheiras de Vila do Conde ("Rendilheiras que teceis").
Acrescente-se que Amândio Marques também gravou pelo menos dois discos de guitarradas, igualmente para a Parlophon, e igualmente com o acompanhamento de Francisco Fernandes e Pais da Silva:
B33016 - Variações em ré menor / Fado em lá maior;
B33017 - Fado em dó sustenido menor / Capricho.

[3] Luís Canto Moniz era cirurgião, e Carlos Leal era (creio) anestesista.