quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Apontamentos sobre a Imposição de Insígnias dos estudantes da Universidade do Porto. Uma tradição pouco conhecida

[Texto publicado originalmente no blogue Virtual Memories (de visita obrigatória regular), de António Manuel Nunes, em 12 de Novembro. Retirei uma pequena apresentação do autor do texto principal (eu) e algumas considerações sobre a Imposição de Insígnias e a latada de Coimbra.]

O blogue solicitou ao Prof. Doutor João Caramalho Domingues um testemunho documentado sobre a cerimónia da Imposição de Insígnias (cartola e bengala, pasta com fitas e grelos). Esta cerimónia estudantil é única no cenário académico português. Com origem na Escola Médico-Cirúrgica do Porto (onde desde finais do século XIX os estudantes usavam pasta de luxo com fitas de seda em amarelo e vermelho), o costume seria retomado e aprofundado pela Universidade do Porto. A partir de ca. 1980 a imposição de insígnias foi apropriada pelos estudantes de quase todos os estabelecimentos de ensino superior públicos e privados, universitários e politécnicos, com sede na Região Norte.

Trata-se, para todos os efeitos, de uma replicação da cerimónia de formatura, realizada antes da conclusão oficial do curso, com a criativa e interessante peculiaridade de acoplar duas tradições autónomas e geograficamente distintas (a festa da pasta, herdada da Médico-Cirúrgica, a cartola e bengala levadas de Coimbra) e de juntar no acto festivo estudantes, famílias, professores do curso e representantes da associação de estudantes e/ou do conselho de veteranos (órgão regulador das tradições académicas).
Na Universidade de Coimbra a festa de Imposição de Insígnias dos estudantes novos grelados e novos fitados (completamente distinta da Imposição de Insígnias a doutores na sala dos actos grandes) acontece não no fim do ano escolar mas no início [no dia da latada].
Em Coimbra a Universidade não realiza formaturas desde 1910, imobilismo que causa a maior perplexidade nas universidades brasileiras. Na festa da Queima das Fitas, tradicionalmente no mês de Maio, os estudantes que concluem cursos desfilam no cortejo alegórico desde a década de 1930 com cartola e bengala de fantasia na cor dos respectivos cursos (excepto as dos veteranos que são cartolões pretos). Como adereços carnavalescos que são, ninguém os designa por insígnias. A cartola e bengala, usam-se desde a manhã do dia do cortejo alegórico até ao último dia da Queima das Fitas, podendo o portador andar com a pasta com as fitas assinadas, mas o que não pode usar é a capa de estudante.
A tradição de bengalar a cartola também era desconhecida em Coimbra (ou pelo menos não existia até à década de 1990). À luz da cultura local seria uma afronta e uma desonra alguém bater na cabeça de um quintanista fitado. Na Universidade do Porto, o costume de desferir bengaladas na cartola poderá constituir uma replicação da tradição dos festejos sanjoaninos (bater com os martelos e alhos porros na cabeça), daí a conotação positiva atribuída a este rito e aceitação generalizada que concita. Admite-se também que possa ter colhido alguma sorte de inspiração nos ritos de cavalaria (rito de investidura), em que um "padrinho" tocava com a espada no ombro do neófito. O que nunca se colocou na cabeça dos estudantes da UP foi o barrete octavado dos professores, praticamente idêntico ao espanhol, que já não se usa.
O subtítulo "pouco conhecida" poderá parecer contraditório. A imposição de insígnias é conhecidíssima na Universidade do Porto e nos estabelecimentos de ensino superior da Região Norte (Douro Litoral, Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro). Há muitos infantários do Douro Litoral onde as directoras e educadoras promovem como festa de despedida das salas dos 5 anos uma replicação da Queima das Fitas da UP, com missa (benção de pastinhas colorinhas em cartão), imposição de cartola e bengala, bengaladas da cartola dadas pela directora do estabelecimento, entrega de diploma enrolado e preso com fitinha (rosa para meninos, azul para meninos) e FRA colectivo e interpretação colectiva do hino do infantário. Em alguns desses infantários as educadoras confeccionam umas capas pretas de licra que as crianças levam vestidas. A Imposição de Insígnias dos estudantes também se faz na Universidade do Minho, estabelecimento onde tem um impacto visual e simbólico arrasador face à singela diplomatura realizada em Setembro, sendo ali a cartola substituída por um tricórnio colorido.
Quando se escreve pouco conhecida referimo-nos ao resto do país.


Caro António,
Vou tentar responder às suas perguntas sobre a Imposição de Insígnias da Queima das Fitas do Porto, centrando-me no formato que tinha na minha Faculdade (Ciências) no meu tempo. As variações de faculdade para faculdade e ao longo dos tempos têm sido consideráveis.

Um pouco de contexto: A Queima das Fitas do Porto começava (e começa) às 0h00 do primeiro domingo de Maio (com uma Monumental Serenata). Umas horas depois, na manhã desse domingo, era (é) celebrada a Benção das Pastas.
Na tarde ainda desse domingo, em cada Faculdade, decorria (e decorre) a Imposição de Insígnias (antes da interrupção dos anos [19]70, a Imposição de Insígnias era numa segunda-feira).
No meu tempo (anos 90) a Imposição de Insígnias da Faculdade de Ciências acontecia no Salão Nobre da Faculdade (hoje conhecido como Salão Nobre da Reitoria e que já na altura era frequentemente usado como Salão Nobre da UP). Neste Salão há um estrado ligeiramente elevado (dois degraus) onde fica a mesa da "presidência" e, lateralmente, algumas filas de cadeiras. Na mesa sentavam-se inicialmente o Presidente do Conselho Directivo, o Dux Facultis e o Presidente e/ou o responsável pelo Dep. Tradições Académicas da Direcção da Associação de Estudantes (ou, em cada caso, um seu representante); nas cadeiras laterais [à direita e à esquerda da mesa da presidência] sentavam-se os professores que iam apadrinhar finalistas. Alguns breves discursos, alusivos à Queima das Fitas, ao finalizar dos cursos e às famílias dos estudantes - havia sempre alusões ao facto de esse dia ser também o Dia da Mãe. Na "plateia" sentavam-se muitos familiares dos finalistas (deve haver por esse país fora inúmeras fotografias e vídeos caseiros destas cerimónias) e colegas. Os finalistas propriamente concentravam-se no corredor junto à porta que dava acesso à zona do estrado (ou mais afastados se ainda faltava muito para serem chamados). Faziam-se as últimas assinaturas nas fitas.
Fazia-se então a imposição da cartola a cada finalista. A ordem era por curso (nos meus primeiros anos por ordem alfabética de curso; mais tarde o Conselho de Veteranos estabeleceu uma ordem baseada na antiguidade dos cursos) e por ordem alfabética dentro de cada curso. O finalista era chamado pelo nome, aproximava-se do estrado, em princípio de capa e batina e transportando a pasta com fitas largas (mas com excepções - havia quem não tivesse capa e batina e insistisse em participar, com resistência do Conselho de Veteranos), um caloiro (de capa e batina, claro!) retirava-lhe a capa e a pasta (recolhendo as fitas?), e o padrinho (em pé no estrado, já não no cadeiral) colocava a cartola na cabeça do finalista, dando-lhe uma a três ligeiras bengaladas na cartola. Aplausos e gritos de incentivo da assistência. No final de cada curso, um dos cartolados puxava um FRA pelos finalistas de...
Uma palavra sobre os padrinhos: sempre tive a ideia de que deviam ser professores. Cada finalista convidaria um professor para ser seu padrinho (claro que os professores mais populares tinham muitos afilhados); frequentemente estes "professores" eram na verdade assistentes. Mas havia excepções: por exemplo, eu cheguei a ser padrinho de uma colega e amiga minha (quando era assistente-estagiário mas noutra universidade, e não foi com certeza nessa qualidade que lhe pus a cartola; pelo menos era licenciado...; tenho ideia que noutras faculdades as excepções eram mais frequentes e mais "excepcionais" - um antigo dux veteranorum, que nunca se licenciou, foi pelo menos uma vez padrinho de cartola, numa faculdade que não a sua).
A seguir à imposição das cartolas vinha a imposição das fitas. Ainda por curso, mas já sem chamada pessoal: os novos fitados de cada curso (de capa e batina!), com a pasta com fitas largas recolhidas e com grelo, dirigiam-se em grupo à mesa, onde estavam os seus padrinhos - cartolados - que lhes retiravam o grelo da pasta (passando então para o pescoço) e tiravam as fitas para fora. FRA pelo novos fitados de...
A seguir, imposição do grelo: semelhante à anterior, com os novos fitados como padrinhos. FRA.
A imposição das nabiças e sementes (insígnias desconhecidas em Coimbra, datando dos anos 60 no Porto, por vezes chamadas "falsas insígnias") era feita depois, à margem da cerimónia.
Entre estas imposições havia também actuações de grupos musicais da
faculdade (Grupo de Folclore, Grupo de Fados, Tuna Feminina, Tuna
masculina). Devia haver também, mas no meu tempo era raro, "serrotes": paródias feitas pelos cartolados de um curso aos professores desse curso (tipicamente insistindo mais nos professores que não davam aulas ao último ano, por motivos óbvios).
Numa faculdade com 9 a 14 licenciaturas e 2000 a 3000 alunos, estamos a falar de uma cerimónia para várias horas, a que muito pouca gente assistiria de início ao fim.
Havia também fotografias de grupo, naturalmente. Há várias gerações de fotografias dos cartolados, ou novos fitados, ou novos grelados, do curso ..., junto à Fonte dos Leões.

Pode ver algumas dos anos 60 no
Álbum de Memórias da UP:
http://sigarra.up.pt/up/web_base.gera_pagina?p_pagina=1001831.

Devo dizer algo sobre a queima do grelo, ou queima das fitas. Por vezes, mas nem sempre, a organização da cerimónia (Dep. Tradições Académicas da AE) lembrava-se de colocar um penico com fogo junto ao estrado, umas vezes para os novos fitados queimarem o seu grelo (muito simbolicamente - passavam apenas o grelo por cima das chamas a caminho da mesa), outras para os finalistas queimarem as suas fitas (simbolicamente, claro).

A confusão fitas/grelo e o facto de nem sempre o penico sequer estar lá mostra a importância com que este pormenor era encarado. Confesso que devo ter alguma "culpa" no desaparecimento definitivo (?) do penico por meados da década.

Repito que noutras faculdades a Imposição das Insígnias teria pormenores diferentes. Lembro-me de ouvir dizer que em Economia os novos fitados não levavam as suas pastas até aos padrinhos; em vez disso, dirigiam-se aos padrinhos que lhas entregavam, com as fitas soltas (os grelos antigos nem deviam aparecer). O facto de as Imposições das várias faculdades decorrerem em paralelo facilitaria o aparecimento de tradições divergentes.
Não tenho também dúvidas de que, mesmo na Faculdade de Ciências, os pormenores seriam diferentes antes dos anos 70 (a começar pelo facto de se fazer a Imposição de Insígnias noutras salas que não o Salão Nobre).

Quanto à história desta tradição:
A Imposição de Insígnias é o resultado de uma evolução da Entrega da Pasta da Escola Médico-Cirúrgica (depois Festa da Pasta nas várias faculdades da UP e Institutos extra-UP). Não tenho qualquer dúvida sobre isso.
O que eu não sei ao certo é quando a cartola e bengala começou a ser imposta ou quando se começou a fazer imposição das fitas e grelo a cada novo fitado ou grelado, em vez de mera passagem simbólica de uma pasta com fitas a um novo fitado e de uma pasta com grelo a um novo grelado (que era o que acontecia nos anos 30).
As pistas cronológicas que posso dar de momento são as seguintes:
- Em 1948 já havia cartolas, pelo menos em Medicina (mas haveria imposição ou entrega?); nesse ano em Engenharia houve entrega simbólica de uma pasta (com fitas) a um novo fitado e em Farmácia houve distribuição das pastas (uma pessoa a distribuir todas as pastas):
http://repositorio-tematico.up.pt/handle/10405/23441
Não vejo aí a ideia de imposição padrinho-afilhado; nem sequer a palavra "imposição".
- Passados 5 anos, em 1953, houve "entrega dos grelos, fitas e cartolas"
na FCUP, e já se usava a expressão "imposição das insígnias":
http://repositorio-tematico.up.pt/handle/10405/24250

Perguntou-me pela origem do costume das bengaladas na cartola.
Sinceramente, não sei quando começou. Não me admiraria se fosse dos anos 80.
Devo acrescentar que, além do padrinho, e depois de a cartola e bengala ter sido imposta, o cartolado vai recebendo bengaladas como cumprimento ao longo da Queima das Fitas (o que é bastante, se se lembrar de que a Imposição das Insígnias é logo no primeiro dia); no cortejo, passados dois dias, muitas cartolas estão já semi-desfeitas.
Perguntou-me também se antes de ser ter adoptado na UP a cartola e a bengala, os finalistas colocavam na cabeça outro tipo de chapéu que ainda não seria a cartola.
Eu diria que não. Há uma fotografia dos finalistas de Medicina de 1939, à futrica, com os chapéus (normalíssimos da época) todos ao contrário. Mas acho forçado ver aí um antecedente da cartola. E quanto a imposição, não me parece...

Três notas finais:
1 - Frequentemente, entre os praxistas, há discussões (verdadeiramente académicas) sobre se a cartola e bengala são insígnias... São impostas na Imposição de Insígnias; mas não são insígnias como as fitas e grelo...
2 - As semelhanças com as cerimónias de "graduation" (assisti a duas em Inglaterra) são inequívocas, particularmente pensando na participação das famílias. A principal diferença é o facto de funcionar por antecipação - o cartolado ainda não acabou o curso.
3 - Não sei quantos estudantes do Porto terão consciência de que na Queima das Fitas de Coimbra não existe Imposição de Insígnias...

Um abraço,
João Caramalho Domingues

4 comentários:

  1. Caro João:

    a cerimónia de imposição de insígnias que descreveste em Ciências é praticamente idêntica à de Letras. O "serrote" era, em meados da década de 1980, na FLUP, uma constante. Desconheço se entretanto se perdeu. Estou em crer que sim.

    O ritual que usávamos era o seguinte:

    o cartolando aproximava-se do padrinho com a capa pelos ombros e a pasta com as fitas assinadas de fora (acompanhado de um caloiro - por vezes havia um caloiro de serviço para todos os cartolandos), levando a cartola e a bengala na mão direita e, dentro desta, o laço ou a roseta;

    o padrinho punha as fitas para dentro, retirava a capa dos ombros do cartolando e entregava a pasta e a capa ao pagem de serviço; retirava a gravata e colocava o laço (no caso das meninas, impunha a roseta sobre a lapela esquerda) e finalmente a cartola, dando regra geral três pancadas leves, entregando de imediato a bengala; um abraço ou dois beijinhos, conforme os casos, desejos de felicidades, e ala que se faz tarde a dar e receber pancadinhas dos colegas, por entre a baba e ranho dos papás embevecidos.

    Quanto à altura da imposição de insígnias, lutei durante anos, sem sucesso, para que mude para o início do ano lectivo.

    Há dois anos quis o acaso que eu fosse assistir à imposição de insígnias do curso de Psicologia da Univ. Católica do Porto. Vi "padrinhos" de toda a forma e feitio - pais, mães, madrinhas de baptismo, irmãos mais novos que ainda frequentam o secundário... O que não vi foi membros do corpo docente nem um mínimo de solenidade no acto. Receio bem que este se tenha tornado no paradigma actual.

    Por aquelas bandas o "chique" é ter a cartola desfeita o mais depressa possível pelos colegas, aplicando pancadas de uma violência extrema com frequentes maus resultados. Quase todos em menos de uma hora tinham para usar pouco mais do que abas com farrapos de cetim. Quanto mais farrapo, melhor.

    Aquele abraço e mais uma vez obrigado.

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  2. Caro João, É realmente verdade que no Porto muito pouca gente terá a noção de que não há imposição de insígnias na UC. Eu mesma descobri isso ano passado em conversa com uma amiga que estuda na UC.
    Obrigada por mais uns esclarecimentos.

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  3. ola. Para o aluno poder ir a imposiçao de insignias era preciso ele ter andado primeiro na praxe ??

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  4. ola. Para o aluno poder ir a imposiçao de insignias era preciso ele ter andado primeiro na praxe ??

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